21 de abril de 2010
Por George Weigel
Dr. Küng,
Há uma década e meia atrás, um ex-colega seu, um dos mais jovens teólogos progressistas no Vaticano II, contou-me sobre uma advertência amigável que lhe teria feito no começo da segunda sessão do Concílio. Essa pessoa, hoje um eminente catedrático em Sagradas Escrituras e defensor da reconciliação judaico-cristã, lembrava como, naqueles dias conturbados, você o levou para dar uma volta por Roma em um Mercedes vermelho conversível, o qual seu amigo presumiu ter sido um dos frutos do sucesso comercial de seu livro, The Council: Reform and Reunion[1].
Seu colega considerou aquela exibição automotiva um chamariz de atenção imprudente e desnecessário, dado que algumas de suas opiniões mais aventureiras, e seu talento para o que mais tarde seria conhecido como “frases de efeito”, já estavam levantando sobrancelhas e causando frio em espinhas na Cúria Romana. Então, conforme me foi contado, seu amigo o chamou à parte um dia e disse, usando um termo francês que vocês dois entendiam, “Hans, você está ficando muito évident[2].”
Como alguém que, sozinho, inventou um novo tipo de personalidade global – o teólogo dissidente que se transforma em estrela da mídia internacional – acredito que você não tenha ficado muito incomodado com a advertência de seu amigo. Em 1963, você já estava determinado a traçar um caminho singular para si, e conhecia a mídia suficientemente bem para saber que uma imprensa mundial obcecada com a história peculiar de um teólogo sacerdote dissidente daria a você um megafone para seus pontos de vista. Você deve ter ficado triste com o saudoso João Paulo II por ter tentado desmantelar aquele enredo ao retirar seu mandato eclesiástico para ensinar como professor de teologia católica; sua subsequente acusação rancorosa de uma suposta inferioridade intelectual de Karol Wojtyla, em um volume de suas memórias, tornou-se, até recentemente, o ponto mais baixo de uma carreira polêmica na qual se tornou évident que você é um homem pouco capaz de reconhecer inteligência, decência ou boa vontade em seus oponentes.
Eu digo “até recentemente”, entretanto, porque sua carta aberta aos bispos do mundo, de 16 de abril, que li primeiramente no Irish Times, estabeleceu novos padrões para aquela forma distintiva de ódio conhecida como odium theologicum e para a condenação maldosa de um velho amigo que, ao ser elevado ao papado, foi generoso com você ao encorajar aspectos de seu trabalho atual.
Antes de chegarmos ao assalto à integridade do Papa Bento XVI, entretanto, permita-me observar que seu artigo deixa terrivelmente claro que você não tem prestado muita atenção às questões sobre as quais se pronuncia com um ar de infalibilidade que faria corar as bochechas de Pio IX.
Você parece displicentemente indiferente ao caos doutrinal que cerca a maioria do protestantismo europeu e norte-americano, o qual criou circunstâncias nas quais um diálogo ecumênico teologicamente sério ficou gravemente ameaçado.
Você considera como verdadeiras as acusações mais irracionais feitas a Pio XII, evidentemente sem levar em conta que o recente debate entre os estudiosos está fazendo a balança pender a favor da coragem daquele Papa na defesa dos judeus europeus (independentemente do que se queira pensar a respeito de sua prudência).
Você erra ao representar os efeitos do discurso de Bento XVI em Regensburg, em 2006, rejeitando-o como tendo “caricaturado” o Islã. Na verdade, o discurso em Regensburg focou novamente o diálogo católico-islâmico nas duas questões que precisam ser urgentemente abordadas – a liberdade religiosa como um direito humano fundamental que pode ser conhecido pela razão, e a separação da autoridade religiosa e política no estado do século vinte e um.
Você não mostra qualquer compreensão a respeito do que realmente previne a AIDS na África, e se agarra ao desgastado mito da “superpopulação” em um momento onde as taxas de natalidade estão caindo ao redor do globo e a Europa está entrando em um inverno demográfico criado conscientemente por ela mesma.
Você parece alheio à evidência científica que subscreve a defesa que a Igreja faz do status moral do embrião humano, ao mesmo tempo em que acusa falsamente a Igreja Católica de se opor à pesquisa com células-tronco.
Por que você desconhece essas coisas? Obviamente você é um homem inteligente; você chegou a fazer um trabalho pioneiro em teologia ecumênica. O que aconteceu com você?
O que aconteceu, creio eu, é que você perdeu seus argumentos a respeito do significado e da hermenêutica correta do Vaticano II. Isso explica porque você insiste incansavelmente em sua busca cinquentenária por um catolicismo protestante, precisamente no momento em que o projeto liberal protestante está desmoronando de sua inerente incoerência teológica. E é por isso que agora você se envolveu em uma torpe difamação de outro ex-colega do Vaticano II, Joseph Ratzinger. Antes, porém, de abordar essa difamação, permita-me comentar brevemente sobre a hermenêutica do Concílio.
Ainda que você não seja o expoente mais completo, teologicamente falando, daquilo que Bento XVI chamou de “hermenêutica da ruptura” no discurso à Cúria Romana no Natal de 2005, você é, sem dúvida, o representante de maior visibilidade internacional daquele grupo idoso que continua a insistir em que o período de 1962 a 1965 marcou um caminho sem volta decisivo na história da Igreja Católica: o momento de um novo começo, no qual a Tradição seria destronada de seu lugar de costume como fonte primária de reflexão teológica, sendo substituída por um cristianismo que paulatinamente deixaria “o mundo” estabelecer a agenda da Igreja (como num mote que o Conselho Mundial de Igrejas utilizava na época).
A luta entre essa interpretação do Concílio e aquela defendida por padres conciliares como Ratzinger e Henri de Lubac dividiu o mundo teológico católico pós-conciliar em grupos contendedores representados por duas revistas: a Concilium para você e seus colegas progressistas, e a Communio para aqueles que vocês continuam a chamar de “reacionários”. O fato de que o projeto Concilium se tornou cada vez mais inviável com o tempo – e que uma geração mais nova de teólogos, especialmente na América do Norte, passou a gravitar na órbita da Communio – não deve ter sido uma experiência feliz para você. E o fato de que o projeto Communio moldou decisivamente as deliberações do Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985, convocado por João Paulo II para celebrar os resultados alcançados pelo Vaticano II e avaliar sua plena implementação no vigésimo aniversário de seu encerramento, deve ter sido outro baque.
Ainda assim arrisco dizer que a espada entrou mesmo em sua alma quando, em 22 de dezembro de 2005, o recém-eleito Papa Bento XVI – o homem cuja indicação para a faculdade teológica de Tübingen você tinha ajudado a conseguir – dirigiu-se à Cúria Romana e sugeriu que a disputa tinha acabado: e que a “hermenêutica conciliar da reforma”, que presumia continuidade com a Grande Tradição da Igreja, tinha prevalecido sobre a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”.
Talvez, enquanto você e Bento XVI bebiam cerveja em Castel Gandolfo no verão de 2005, você de alguma forma tenha imaginado que Ratzinger tinha mudado de idéia nessa questão central. Obviamente ele não tinha. Por que você chegou a imaginar que ele poderia aceitar sua visão sobre o que significaria uma “constante renovação da Igreja”, francamente, é um mistério. Também sua análise sobre a situação católica contemporânea não se tornou nem um pouco mais plausível quando se lê, mais adiante em seu recente artigo, que os papas recentes têm sido “autocratas” em relação aos bispos; de novo, é de se pensar se você tem prestado atenção suficientemente. Pois parece evidente e claro que Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI têm sido dolorosamente relutantes – alguns diriam, desafortunadamente relutantes – em disciplinar bispos que se mostram incompetentes ou com má conduta e que por isso perderam a capacidade de ensinar e de liderar: uma situação que muitos de nós esperam que mude, e mude logo, à luz das recentes controvérsias.
De certa forma, naturalmente, nenhuma de suas reclamações sobre a vida católica pós-conciliar é nova. Entretanto, parece mesmo muito contraditório, para alguém que realmente se importa com o futuro da Igreja Católica como uma testemunha da verdade de Deus para a salvação do mundo, insistir no ponto a que você persistentemente nos insta: que um catolicismo credível percorra o mesmo caminho traçado nas décadas recentes por várias comunidades protestantes que, conscientemente ou não, seguiram uma ou outra versão de seus conselhos para adotar uma hermenêutica de ruptura com a Grande Tradição Cristã. A propósito, essa é a singular posição que você ocupou desde que um de seus colegas se preocupou em você estar muito évident; e já que essa posição lhe manteve évident, pelo menos nas colunas de jornais que compartilham sua visão sobre a tradição católica, imagino ser demais esperar que você mude, ou mesmo aperfeiçoe, seus pontos de vista, mesmo se cada pedacinho de evidência empírica à disposição sugerir que o caminho que você propõe é o caminho da decadência para as igrejas.
O que pode ser esperado, em vez disso, é que você se comporte com um mínimo de integridade e decência nas controvérsias nas quais se envolve. Entendo o odium theologicum tão bem quanto qualquer um, mas tenho de, com toda a franqueza, dizer-lhe que em seu recente artigo você cruzou uma linha que não devia ser ultrapassada, quando escreveu:
“Não há como negar o fato de o sistema de ocultamento posto em prática em todo o mundo diante dos crimes sexuais dos clérigos ter sido engendrado pela Congregação para a Doutrina da Fé romana sob o cardeal Ratzinger (1981-2005)”.
Isso, senhor, não é verdade. Recuso-me a acreditar que você sabia que isso era falso e mesmo assim o tenha escrito, pois isso significaria que você conscientemente se condenou como um mentiroso. Mas assumindo que você não sabia que esta sentença era um punhado de mentiras, então você é tão notoriamente ignorante a respeito de como a competência por casos de abuso eram designadas na Cúria Romana antes de Ratzinger ter tomado o controle do processo e trazido o mesmo para competência da CDF em 2001, que perdeu toda a possibilidade de ser levado a sério a respeito deste ou de qualquer outro assunto que envolva a Cúria Romana e o governo central da Igreja Católica.
Como talvez você não saiba, tenho sido um crítico vigoroso e, assim espero, responsável a respeito de como casos de abuso foram (mal) conduzidos por bispos e autoridades na Cúria até o fim da década de 1990, quando o então Cardeal Ratzinger começou a lutar por uma mudança significativa no tratamento desses casos. (Se estiver interessado, consulte meu livro de 2002, The Courage To Be Catholic: Crisis, Reform, and the Future of the Church[3].)
Por isso, falo com algum conhecimento de causa quando digo que sua descrição a respeito do papel de Ratzinger, conforme citado acima, não é apenas burlesca para quem quer que esteja familiarizado com a história, mas contradita pela experiência de bispos americanos que sempre viram em Ratzinger alguém cuidadoso, disposto a ajudar e profundamente preocupado com a corrupção do sacerdócio por uma pequena minoria de abusadores, e ao mesmo tempo aflito com a incompetência e má conduta de bispos que levaram a sério, mais do que deviam, as promessas da psicoterapia ou que não tiveram a hombridade de confrontar o que tinha de ser confrontado.
Sei que não são os autores que redigem os subtítulos, algumas vezes horríveis, que são colocados em colunas de jornal. Apesar disso, você foi o autor de uma peça tão ácida – em si mesma completamente inapropriada para um sacerdote, um intelectual, ou um cavalheiro – que permitiu que os editores do Irish Times resumissem seu artigo da seguinte forma: “O Papa Bento piorou tudo o que já era errado na Igreja Católica e é diretamente responsável por engendrar o ocultamento global do estupro de crianças perpetrado por sacerdotes, de acordo com esta carta aberta a todos os bispos católicos.” Essa falsificação grotesca da verdade demonstra aonde o odium theologicum pode levar um homem. Mas de qualquer forma isso é vergonhoso.
Permita-me sugerir que você deve ao Papa Bento XVI um pedido público de perdão pelo que, objetivamente falando, é uma calúnia que, assim rezo, tenha sido formada em parte por ignorância (ainda que por ignorância culpável). Garanto-lhe que sou a favor de uma profunda reforma na Cúria Romana e no episcopado, projetos que descrevo até certo ponto no livro God´s Choice: Pope Benedict XVI and the Future of the Catholic Church[4], uma cópia do qual, em alemão, ficarei feliz em enviar-lhe. Mas não há caminho para a verdadeira reforma na Igreja que não passe pelo íngreme e estreito vale da verdade. A verdade foi trucidada em seu artigo no Irish Times. E isto significa que você atrapalhou a causa da reforma.
Com a garantia de minhas orações,
George Weigel
George Weigel é Membro Sênior do Centro de Ética e Política Pública de Washington, onde ocupa a cadeira William E. Simon em estudos católicos.
Artigo original em inglês disponível em: http://www.firstthings.com/onthesquare/2010/04/an-open-letter-to-hans-kung
Traduzido por Fabiano Rollim
[1] N. do T.:“ O Concílio: Reforma e Reunião” – livro não publicado no Brasil.
[2] N. do T.: Évident: aparente, evidente, notável.
[3] N. do T.: “A Coragem de Ser Católico: Crise, Reforma e o Futuro da Igreja” – livro não publicado no Brasil.
[4] N. do T.: “A Escolha de Deus: O Papa Bento XVI e o Futuro da Igreja Católica” – livro não publicado no Brasil.
nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura
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29.4.10
Weigel responde a Küng e aguarda réplica
Já aqui aludimos a uma carta do teólogo alemão Hans Küng, a propósito da reacção que suscitou a Massimo Introvigne. Depois disso, o Público publicou-a, contribuindo para espalhar o veneno pelo mundo lusófono.
Impõe-se, por isso, a publicação de uma resposta da autoria de George Weigel, na tradução portuguesa publicada no blogue Erguei-Vos, Senhor, da autoria do leitor Fabiano Rollim, aos quais dirijo os meus cumprimentos e agradecimentos:
17.4.10
«Ele considera a arte e a ciência como os dons mais preciosos de Deus ao Homem»
(1) - «Allah did not create man so that he could have fun. The aim of creation was for mankind to be put to the test through hardship and prayer. An Islamic regime must be serious in every field. There are no jokes in Islam. There is no humor in Islam. There is no fun in Islam. There can be no fun and joy in whatever is serious.»
Publicado por
Luís Cardoso
sobre:
Bento XVI,
Igreja,
Islamismo,
Música,
Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música
«Ad multos annos!»
Do blogue Fratres In Unum:
℣. Oremus pro Pontifice nostro Benedicto. ℟. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.
℣. Tu es Petrus, ℟. Et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam.
Oremus.
Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum Benedictum, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam. Per Christum, Dominum nostrum.℟. Amen.
16.4.10
Bento XVI sobre a peculiar natureza da Igreja
O que é preciso compreender é que a Igreja não é uma instituição secular: é uma instituição absolutamente sui generis: sendo temporal, constituída por seres humanos ― e por isso sujeita às misérias da natureza humana ―, é uma instituição divina, por ter sido fundada pelo Verbo incarnado, Deus Filho, Ele próprio; por assentar na sucessão apostólica, instituída por Jesus Cristo.
Bento XVI:
«(...) se a Igreja é a nossa Igreja, se a Igreja somos apenas nós, se as suas estruturas não são as que Cristo quis, então deixa de ser concebível a existência de uma hierarquia (...) estabelecida pelo próprio Senhor. Rejeita-se o conceito de uma autoridade querida por Deus, uma autoridade que tem a sua legitimação em Deus e não - como acontece nas estruturas políticas - no consenso da maioria dos membros da organização. Mas a Igreja de Cristo não é um partido, não é uma associação, não é um clube: a sua estrutura profunda e ineliminável não é democrática, mas sacramental, portanto hierárquica»(*).
In Dag Tessore, Bento XVI: Pensamento Ético, Político e Religioso, Lisboa: Temas e Debates, 2007, p. 15
Catado numa entrada de Pedro Arroja no Portugal Contemporâneo, na qual se afirma:
«Existe a convicção, incluindo no mundo católico, de que a Igreja pertence a todos nós, é uma património da humanidade e que nós próprios podemos, portanto, mudar as estruturas da Igreja, emitindo opinião, associando-nos em correntes de opinião e fazendo pressão, de molde a adaptá-la aos tempos modernos. (...) A Igreja não é nossa. A Igreja é de Cristo. Reformar a Igreja não é adaptá-la aos desejos de qualquer maioria, mesmo que essa maioria seja formada por pessoas que se proclamam católicas. Reformar a Igreja é adaptá-la aos desejos de Cristo. Sob a autoridade de Bento XVI a Igreja nunca será popular. Como se tem visto nas últimas semanas.»
Introvigne acusa: «é Küng quem devia pedir perdão à Igreja e ao Papa»
O sociólogo italiano Massimo Introvigne reage desta forma à publicação de uma carta da autoria do teólogo Hans Küng:
«Massimo Introvigne (...) se ha referido hoy en términos durísimos a la carta que el teólogo disidente Hans Küng ha dirigido a todos los obispos del mundo a través de importantes periódicos como El País. Introvigne ha dicho que “se trata de una invitación explícita al cisma por parte de un personaje que recibe grandes aplausos fuera de la Iglesia pero que por el contrario goza de escasísimo seguimiento entre los fieles católicos”. Además Introvigne considera esta carta “inmoral”, porque Küng miente a sabiendas cuando afirma que el Cardenal Ratzinger, con la Carta De delictis gravioribus de 2001, hizo más difícil perseguir a los sacerdotes pedófilos. Por el contrario, según Introvigne, “con aquella carta y con otras medidas el actual Pontífice ha puesto en marcha un mecanismo de represión de los casos de pedofilia mucho más duro que el que existía previamente. Por otra parte ha señalado que “los casos de abusos y de inmoralidad por parte del clero, como demuestran los datos, se han multiplicado en los años 70, precisamente cuando se ha creado un clima de rechazo respecto a la enseñanza moral del Magisterio en los seminarios y en las universidades católicas, del cual Küng es uno de los mayores responsables”. Por este motivo opina que “debería ser él, más bien, quien rindiese cuentas de los vientos que ha sembrado, y debería por tanto pedir excusas a la Iglesia y al Papa “. Máximo Introvigne (...) concluye diciendo que “el escándalo creado por Küng es providencial porque traza una línea de demarcación: por un lado los católicos fieles al Papa, por otro un cisma inmoral que finalmente se quita la máscara y revela la complicidad entre el disenso interno de la Iglesia y los lobbys laicistas que atacan al Papa desde el exterior”. “La inmensa mayoría de los fieles, sentencia Introvigne, sabe perfectamente de qué lado estar”. »
Auguri, Santo Padre
No dia do octogésimo terceiro aniversário de Joseph Ratzinger, Bruno Mastroiani faz um balanço dos primeiros cinco anos de pontificado de Bento XVI.
Que muitos mais se lhes sigam.
«Il 16 aprile Benedetto XVI compie 83 anni e il 19 aprile cinque di pontificato. Cosa è successo in questo lustro? Il Papa ha scritto tre encicliche (su Dio, sulla speranza e sulla verità dell’amore), ha viaggiato dall’America all’Australia e in diversi paesi d’Europa, arrivando fino in Africa. Ha liberalizzato il rito antico, ha revocato la scomunica ai vescovi lefebvriani, ha creato le condizioni per il rientro in comunione con Roma degli anglicani. Ha compiuto passi in avanti nel dialogo con gli ortodossi, ha costruito un confronto schietto con gli ebrei e con i musulmani. Ha incontrato le vittime dei preti pedofili, ha chiamato a raccolta i vescovi e ha confortato tutti con la lettera ai cattolici d’Irlanda. Ha indetto l’anno paolino per richiamare i battezzati ad essere apostoli. Ha indetto l’anno sacerdotale per rilanciare la missione dei sacerdoti. Ha scritto un bestseller su Gesù di cui si attende la seconda parte. Ha pronunciato omelie, discorsi e catechesi che rimarranno nella storia. Sta risistemando l’abc della fede, sta ricucendo gli strappi delle interpretazioni estreme del Concilio Vaticano II, sta presentando al mondo un cristianesimo vitale e intelligente capace di rimettere Dio al suo posto dopo decenni di confusione relativizzante. Tutto questo in un lasso di tempo pari a una legislatura italiana. Non basteranno le imprecisioni pedofile del New York Times o le chiacchiere su presunti problemi di salute a distrarci. I risultati del pontificato di Ratzinger, dopo questi cinque anni, sono sotto gli occhi di tutti. Auguri Santo Padre.»
10.4.10
Pseudopolémica, mais lama (2)
Mais um dia, mais um monte de lixo atirado à cara de Bento XVI.
Graças a Deus que há quem defenda o Papa, logo a Igreja, destas difamações.
Recomenda-se a leitura da análise demolidora ao artigo da Associated Press, da autoria do padre John Zuhlsdorf, à qual chego via Spe Deus, que publica um resumo.
8.4.10
De re publica et libertate religiosa
Não reclamar olho por olho, nem dente por dente, mas antes dar a outra face, por amor, como fez o seu Fundador, é o que ensina a Igreja na pessoa do Papa, que recebeu o Presidente da República Islâmica do Pakistão, Asif Ali Zardari, depois do que por lá tem acontecido com os christãos. A Egreja defende que o Estado deve reconhecer o direito à liberdade religiosa para os cidadãos procurarem a verdade em harmonia uns com os outros, e leva isso às nações que desconhecem o conceito. A prová-lo estão as actividades beneméritas que lá desenvolve para usofruto de todos, de qualquer crença. Não se trata de desculpabilizar o mal praticado, até porque julgá-lo compete às autoridades civis legalmente reconhecidas, à comunidade internacional, e não às autoridades Eclesiais, mas de fornecer os meios sobrenaturais (e também naturais) para corrigir o que não está bem e construir uma sociedade mais justa e caridosa.
Já agora, uma inovação no site do Vaticano:
Igreja e pedofilia: quanto mais católica e menos mundana, melhor
Igreja e pedofilia: erros grosseiros com dolo eventual
Copio integralmente do Spe Deus:
«“New York Times” baseou-se em tradução automática para acusar Bento XVI
O documento utilizado pelo jornal “New York Times” para ligar o actual Papa e o Cardeal Bertone a um caso de abusos sexuais, nos EUA, é uma tradução feita online, com erros e omissões que alteram o sentido do original. O caso vem divulgado em vários jornais católicos. Ao longo das últimas semanas, numa série de artigos, editoriais e textos de opinião, o “New York Times” procurou imputar ao Vaticano, e nomeadamente ao então Cardeal Ratzinger, a responsabilidade de ter tentado encobrir um caso de abusos na diocese de Milwaukee, nos Estados Unidos. O jornal baseou-se em documentação cedida por advogados das vítimas do Padre Murphy, que é acusado de ter abusado sexualmente de centenas de jovens numa escola para surdos do qual era director, durante cerca de duas décadas, até 1974. O caso só foi remetido à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) em 1996 e o sacerdote em causa morreu em 1998, sem que fosse iniciado um processo canónico. Inicialmente, o “New York Times” procurou responsabilizar o então prefeito da CDF, Cardeal Ratzinger, por pressões no sentido de não se avançar com um processo e lidar com o assunto em segredo. Há dias, e com base na mesma documentação, o jornal alemão “Die Zeit” chegou a uma conclusão diferente, sublinhando o facto do nome de Ratzinger não aparecer em qualquer documento, e de não haver nenhuma indicação de que tivesse estado presente nas reuniões que decorreram no Vaticano sobre este caso, apontando o dedo ao então secretário da CDF, Cardeal Bertone. Tradução feita no Yahoo Contudo, um dos documentos chave que os jornais utilizam, e que o “New York Times” reproduz no seu site, é uma tradução automática das minutas de uma reunião no Vaticano entre representantes da CDF, chefiados por Bertone, e uma delegação da diocese de Milwaukee. A tradução foi enviada pelo procurador judicial do caso do Padre Murphy, em Milwaukee, ao seu Bispo. Na nota que acompanha o documento, também reproduzida pelo “New York Times”, o Padre Brundage explica que se trata de uma tradução “muito grosseira”, feita apenas para auxiliar a compreensão do original “para aqueles entre nós que não falam italiano”, e que não detecta “as subtilezas do direito canónico”. Aparentemente o jornal nunca encomendou uma tradução profissional das minutas, baseando-se na dita tradução grosseira. Daí decorreram uma série de erros de interpretação que, sustentando, de facto, algumas das acusações que o jornal faz à CDF, contrariam uma leitura real do documento original. A primeira pessoa a detectá-lo foi Lori Pieper, uma tradutora profissional que se deu conta das discrepâncias ao analisar a documentação que o jornal disponibiliza no seu site: http://documents.nytimes.com/reverend-lawrencec-murphy-abuse-case?ref=europe#document/p69. Lori produziu, então, uma tradução profissional e fiel ao original, que remeteu para o jornalista Jimmy Akin, do jornal norte-americano “National Catholic Register”, antes de escrever sobre o assunto no seu blogue pessoal (http://subcreators.com/blog/2010/04/01/what-really-happened-at-the-cdf/). Akin escreveu um artigo extenso sobre o assunto que, entretanto, foi analisado também no “Catholic News Agency”. Assim, e ao contrário do que diz o “New York Times”, a CDF em nenhuma altura põe de parte a possibilidade de avançar com um processo canónico que possa resultar na laicização do Padre Murphy. Contudo, o Cardeal Bertone chama atenção para as tremendas dificuldades que haverá para concluir tal processo, tendo em conta o tempo que tinha passado desde os crimes em si, e as dificuldades inerentes à recolha de provas. Torna-se claro, ainda, que o caso chegou à CDF não por envolver abusos sexuais, que antes de 2001 não estavam sob a alçada deste dicastério, mas por envolver solicitações no confessionário, uma violação da dignidade dos sacramentos que, essa sim, devia ser tratada na CDF. A natureza desses crimes levantava uma dificuldade acrescida, avisa Bertone, uma vez que o Padre Murphy estaria impedido de fazer a sua defesa, estando impedido pelo direito canónico de violar o segredo do confessionário sob pena de excomunhão automática. Sentido, não segredo Longe de procurar encobrir o caso, o Cardeal Bertone mostra-se chocado pelo facto da diocese ter deixado passar tanto tempo desde que foi alertado para os factos, em 1974, até contactar a CDF. Lamenta, ainda, o facto de, na altura das primeiras queixas contra o Padre Murphy, a diocese não ter mantido registos dos procedimentos, outra falha que dificulta em muito um eventual processo. Apesar de não recomendar, sem contudo proibir, um processo canónico, Bertone diz que os Bispos se devem assegurar que o Padre Murphy não volte a ter qualquer contacto com a comunidade surda, e que apenas celebre sacramentos com autorização por escrito do Bispo. Recomenda, ainda, que o Padre Murphy seja acompanhado e obrigado a fazer um retiro até mostrar genuíno arrependimento pelos seus crimes. Caso não o faça, ou caso viole qualquer das limitações pastorais que lhe foram impostas, deve-se avançar com um novo caso, independentemente da idade e estado de saúde débil do acusado. Outro erro grosseiro na versão utilizada pelo jornal é a tradução do termo “no sentido estrito” para “em estrito segredo”, dando ideia de que a CDF estaria a recomendar segredo na abordagem do caso quando, na verdade, se aludia a uma norma do direito canónico, de que as leis que acarretam penas efectivas devem ser interpretadas no sentido mais estrito. (Fonte: ‘Página 1’, grupo Renascença, na sua edição de hoje dia 8.04.2010)»
6.4.10
Igreja e pedofilia: entrevista não publicada do P. Gonçalo P. Almada ao Expresso
Colo uma entrevista não publicada do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada ao Expresso.
E percebe-se que não tenha sido publicada. Se o fosse, o Expresso teria liquidado, ao fazê-lo, o pseudoescâncalo ― não o da deplorável veracidade dos abusos, mas o da ampliação e deformação da sua escala.
Peçamos a Deus que nos dê muitos sacerdotes como o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada:
In Logos, via Spes Deus:
E percebe-se que não tenha sido publicada. Se o fosse, o Expresso teria liquidado, ao fazê-lo, o pseudoescâncalo ― não o da deplorável veracidade dos abusos, mas o da ampliação e deformação da sua escala.
Peçamos a Deus que nos dê muitos sacerdotes como o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada:
In Logos, via Spes Deus:
«1. Qual a sua opinião sobre o fenómeno da pedofilia na Igreja Católica?
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada: Como é evidente, não posso deixar de lamentar todos os crimes de abusos de menores. Não só lamento sinceramente todos os casos de pedofilia como espero que as entidades civis e eclesiais competentes tomem as medidas adequadas para a total erradicação deste fenómeno na sociedade e na Igreja.
Não ignoro, contudo, que a esmagadora maioria destes casos ocorre no seio das famílias, sobretudo das mais disfuncionais, e das instituições do Estado, como o triste caso Casa Pia demonstrou, e não nas instituições da Igreja que, embora também vulneráveis, são, por regra, exemplares no seu desinteressado e muitas vezes heróico serviço aos mais necessitados.
2. Como explica o facto deste fenómeno ter assolado a Igreja Católica?
Pe. GPA: Há um manifesto exagero na afirmação de que este fenómeno tem «assolado a Igreja». Temo que o sensacionalismo criado à volta destes casos e o modo como a Igreja Católica tem sido a eles associada por certa imprensa não seja de todo inocente.
3. Quer exemplificar?
Pe. GPA: Com certeza. Segundo Massimo Introvigne, que cita um estudo de 2004 do John Jay College of Criminal Justice, foram 958 os padres acusados de pedofilia nos Estados Unidos, num período de 42 anos, tendo resultado a condenação de 54, aproximadamente um por ano. Se se tiver em conta que nesse mesmo lapso de tempo foram condenados pelo crime de pedofilia 6.000 professores de ginástica e treinadores desportivos, é necessário concluir que o principal alvo desta campanha mediática não é a pedofilia, que é apenas um pretexto, mas a Igreja e, mais especificamente, o Papa e o sacerdócio católico.
Com efeito, é significativo que, citando Jerkins, a maior parte dos casos de abusos de menores protagonizados nos Estados Unidos por clérigos tenham sido perpetrados por pastores protestantes e não por padres católicos e, no entanto, contrariando a mais elementar justiça e objectividade, são apenas estes últimos, em termos mediáticos, os bodes expiatórios...
4. Entende então que se trata de uma perseguição contra a Igreja Católica?
Pe. GPA: Certamente. Qualquer pessoa de bem, mesmo não sendo católica, vê com preocupação esta crescente onda de intolerância laicista, porque sabe que, hostilizada a Igreja Católica ou neutralizada a sua acção social, quem fica a perder é a família, porque nem o Estado nem nenhuma outra instituição é capaz de assegurar o serviço que a Igreja Católica presta às famílias portuguesas, sobretudo às mais carenciadas.
5. A Igreja portuguesa está a investigar com a necessária diligência as suspeitas sobre padres pedófilos?
Pe. GPA: Muito embora a hierarquia eclesiástica não possa, nem deva, ignorar as suspeitas de padres pedófilos, não só não é sua principal missão investigar estes casos como também não conta com estruturas adequadas para uma tal missão.
Mais do que a lógica da suspeita e da delação, tão ao gosto dos novos fariseus, a Igreja há dois mil anos que se rege pela lógica da confiança e do perdão, seguindo o exemplo do seu Mestre que, embora provocando a indignação dos hipócritas, desculpou a adúltera, como também perdoou a tripla traição de Pedro. Mais do que poder ou tribunal, a Igreja é comunhão e família e, por isso, alegra-se e sofre com todas as glórias e misérias dos seus filhos.
A Igreja, que é santa na sua origem e nos seus fins, é pecadora nos seus membros militantes que, contudo, não enjeita, se neles reconhece um autêntico propósito de conversão.
6. Quer com isso dizer que a Igreja condescende com a pedofilia do seu clero?
Pe. GPA: De modo nenhum, pois a Igreja não condescende nunca com a prevaricação de quantos, investidos na especialíssima responsabilidade do ministério sacerdotal, desonram essa sua condição.
Possivelmente, a condenação mais severa de todo o Evangelho é a que Cristo dirige precisamente aos pedófilos e a quantos são motivo de escândalo para os mais novos. Esse ensinamento evangélico, como todos os outros, não é letra morta na doutrina, nem na praxe eclesial.
7. Pode dar alguns exemplos de documentos da Igreja sobre esta questão?
Pe. GPA: Sem a pretensão de ser exaustivo, permita-me que, a este propósito, recorde alguns dos mais recentes documentos da Santa Sé sobre este particular:
- a instrução Crimen sollicitacionis, de 1922 e que, em 1962, o Beato João XXIII reafirmou e na qual se esclarece a obrigação moral de denunciar estes casos;
- o Código de Direito Canónico, que reafirma a excomunhão automática, ou seja, a imediata expulsão da Igreja, do confessor que alicia o penitente, qualquer que seja a sua idade ou género, para um acto de natureza sexual;
- o Catecismo da Igreja Católica, que renova a condenação da pedofilia;
- e o documento De delictis gravioribus, de 2001, que regulamenta o Motu Proprio Sacramentum Sanctitatis tutela, do Papa João Paulo II que, para evitar qualquer local encobrimento destes delitos, atribui a necessária competência à Congregação para a Doutrina da Fé, então presidida pelo actual Papa.
8. Não obstante esta condenação formal da pedofilia, não é verdade que tem faltado vontade política de aplicar as correspondentes sanções?
Pe. GPA: À hierarquia da Igreja não tem faltado a firmeza necessária para punir os eclesiásticos que incorreram em actos desta natureza. Foi o que aconteceu a um cardeal arcebispo de uma capital centro-europeia, que foi recluído num convento e proibido de qualquer acto público. Foi também o caso do fundador de uma prestigiada instituição religiosa, que foi também suspenso do ministério pastoral, demitido das suas funções de governo na estrutura eclesial por ele fundada, que foi sujeita a inspecção canónica, e obrigado a residir em regime de quase-detenção numa casa religiosa.
9. E se se vier a verificar algum caso no clero português?
Pe. GPA: Como se sabe, graças a Deus não há memória de nenhum sacerdote português, diocesano ou religioso, que tenha sido alguma vez condenado por um crime desta natureza. Se porventura se desse também entre nós algum caso, não tenho dúvidas de que o nosso episcopado, de acordo com as normas a que está obrigado, saberia agir com justiça e caridade.
10. Concorda com as críticas veladas de vários sectores da sociedade que acusam a Igreja de pouco fazer para garantir a total transparência destes processos? A maioria dos casos suspeitos é, regra geral, arquivado pelo Ministério Público. Segundo algumas fontes policiais, «as vítimas retraem-se mais tarde, devido ao ascendente dos alegados agressores».
Pe. GPA: Dada a minha sensibilidade cristã e formação jurídica, causa-me algum desconforto o uso e abuso de expressões tão vagas e perigosas como «críticas veladas», «casos suspeitos», «alegados agressores», porque tendem a criar uma suspeição generalizada. Há um princípio geral de inocência que não pode ser contrariado: um político, um professor, um padre ou um desempregado que seja burlão não faz da sua mesma condição todos os políticos, professores, padres ou desempregados. Se um violador que é engenheiro, como o recentemente detido, não infama todos os engenheiros, nem suscita uma caça aos engenheiros violadores, porque razão um padre pedófilo, se o houver, provoca esta tão desmedida reacção nos meios de comunicação social?!
11. Pode-se dizer que a associação entre pedofilia e sacerdócio católico não é arbitrária, na medida em que é entre os padres que tendem a verificar-se delitos desta natureza?
Pe. GPA: Não, porque uma tal pressuposição carece de fundamento, como as estatísticas mais recentes provam. Por exemplo, na Alemanha, segundo Andrea Tornielli foram notificados, desde 1995, 210.000 casos de delitos contra menores, mas apenas 94 desses casos diziam respeito a eclesiásticos, ou seja, um para cada dois mil envolvia algum sacerdote ou religioso católico. O inquérito Ryan, sobre a situação na Irlanda, é também esclarecedor porque, num universo de 1090 crimes cometidos contra menores em instituições educativas, os religiosos católicos acusados de abusos sexuais foram 23.
12. Talvez alguém entenda que, muito embora haja também pedófilos que não são padres, o crime para que mais tendem os sacerdotes católicos é o abuso de menores.
Pe. GPA: Também não é verdade porque, de acordo com Mons. Scicluna, perito da Congregação para a Doutrina da Fé, que é o organismo da Santa Sé que superintende estes casos, entre os anos 2001 e 2010, houve notícia de 300 casos de pedofilia num total de 400.000 padres. Além disso, os abusos de menores são apenas 10% de todas as acções criminais praticadas por sacerdotes católicos.
13. Mas do ponto de vista da psiquiatria, tudo leva a crer que o celibato sacerdotal é, em boa parte, responsável pelos abusos de menores realizados pelo clero católico…
Pe. GPA: Pelo contrário. Manfred Lutz, um psiquiatra especialista na matéria, afirmou que o celibato sacerdotal não só não incita à prática destes crimes como até favorece uma atitude de respeito e de ajuda aos menores. Esta conclusão científica prova-se também pelo facto de, entre os clérigos condenados por este crime, haver mais pastores protestantes, casados, do que sacerdotes católicos, celibatários, e ainda porque a grande maioria dos pedófilos são casados o que, obviamente, não pode ser usado contra o casamento.
14. Consta na opinião pública que a maioria dos casos suspeitos de padres pedófilos, não é objecto de investigação, nem de posterior procedimento criminal…
Pe. GPA: Se assim é, de facto, não é certamente por culpa da Igreja, que nada tem a ver com as investigações policiais, nem muito menos com as diligências judiciais.
Embora se tenda a crer que a Igreja e o seu clero gozam de um tratamento de excelência na sociedade portuguesa, a verdade é que não deve haver instituição pública nem classe profissional mais maltratada nos media do que a Igreja Católica e os seus sacerdotes.
15. Porque o diz?
Pe. GPA: Permita-me que lhe dê um exemplo. Há uns meses atrás, um pacato pároco português foi detido com enorme aparato por quatro ou cinco polícias trajados a rigor, como se o pobre padre de aldeia fosse um perigoso terrorista, quando na realidade era apenas um mero caçador que tinha por licenciar algumas armas. À notícia, transmitida nos noticiários televisivos, foi dado um aparato que, de não ser dramático, teria sido ridículo, até porque aquele pacífico sexagenário não representava nenhum perigo público. Não foi com certeza por acaso que se forjou toda aquela fantástica encenação, como também não foi por acaso que se convidaram as televisões…
Mas factos ocorridos há dezenas de anos numa instituição pública, como a Casa Pia, e de que foram vítimas dezenas de adolescentes, ainda não conhecem uma decisão judicial… Será isto justiça?!
16. Mas não acha que o incumprimento de uma obrigação por um padre é um escândalo?
Pe. GPA: É verdade que é exigível aos prestadores de serviços públicos uma especial responsabilidade: é razoável que o incumprimento de uma obrigação fiscal por parte um governante seja notícia, mas já o não seja se o prevaricador for um anónimo cidadão. Mas o escândalo não pode ser utilizado como arma de arremesso ideológica, sob pena de que aconteça aos padres católicos de agora o que aconteceu aos judeus alemães, durante o regime nazi.
17. Surpreendem-no estes casos de padres pedófilos?
Pe. GPA: Nenhum pecado é surpresa para nenhum padre e todos os padres sabemos que somos capazes de todos os erros e de todos os horrores. Não é por acaso que, na Semana Santa, a Igreja recorda o tristíssimo caso de Judas Iscariotes, que muito significativamente os evangelistas não silenciaram, quando poderiam tê-lo feito, a bem do prestígio da sua condição sacerdotal e do bom nome da Igreja. Graças a Deus conheço muitos padres, quer seculares como eu, quer religiosos, e confesso-lhe que não conheço nenhum que não mereça a minha admiração.
18. Tem ouvido, mesmo que rumores, de casos de pedofilia por parte de alguns padres? Ou é uma completa surpresa para si a existência deste tipo de casos, que acabam por manchar o nome da instituição secular?
Pe. GPA: Tenho uma enorme devoção por todos os meus irmãos sacerdotes, na certeza de que até no menos bom há, pelo menos, a grandeza do dom e da missão a que foi chamado. Também não ignoro que nenhum de nós, por mais qualidades que possa ter, é indigno dessa graça, pelo que nunca me surpreenderá encontrar nos outros alguma da miséria que diariamente descubro em mim. Mas, mesmo que essa constatação possa de algum modo perturbar-me, confesso-lhe que mais do que a traição de Judas, me admira a santidade e o martírio dos outros onze apóstolos. Talvez por isso, não tenho tempo para ouvir esses rumores de que fala, ou tempo para olhar para essas manchas a que alude e que não ignoro, porque prefiro contemplar a eterna beleza da Igreja, que procuro amar com todo o meu coração.
19. Já denunciou algum caso às autoridades eclesiásticas?
Pe. GPA: Denunciar é um termo que não faz parte do meu dicionário e, como padre, a minha missão não é acusar o culpado, mas perdoar o arrependido.
20. Já teve alguma suspeita de abusos por parte de algum colega seu?
Pe. GPA: Como não é meu hábito falar das vidas alheias, permita-me que, em vez de falar dos meus colegas, lhe diga o que eu desejaria que me acontecesse se caísse numa dessas situações, até porque é isso mesmo que desejo aos meus irmãos sacerdotes.
Se tivesse um dia a desgraça de incorrer nalgum comportamento menos próprio da minha condição sacerdotal, agradeceria que os meus irmãos na fé, padres ou não, tivessem a coragem de me fazerem a correcção fraterna, tal como Nosso Senhor determinou. Se o meu desvario persistisse, não obstante essa caridosa advertência, aceitaria de muito bom grado que o meu bispo utilizasse todos os meios ao seu dispor, sem excluir os civis e penais, para a minha emenda, na certeza de que essa expiação, embora dolorosa, contribuiria decerto para o bem das almas e para a minha salvação.»
4.4.10
«Destruir a ortodoxia católica é o objectivo»
George Neumayr, editor da revista Catholic World Report, em artigo certeiro e contundente no The Washington Times (via Portugal Contemporâneo):
3.4.10
«Bater na Igreja»
Desporto dos cobardes.
Pedro Arroja, no Portugal Contemporâneo:
«Eu gostaria neste post de tratar as agressões à Igreja, (...) [as] agressões de natureza intelectual - calúnias, difamações, insinuações, insultos, etc. Não sem antes acrescentar que as agressões ao Papa são agressões à Igreja, e vice-versa, porque a Igreja Católica é talvez a única instituição em que um homem equivale à instituição, e a instituição equivale ao homem. E isto é assim porque o Papa dispõe de poder absoluto sobre a Igreja. O que Ele diz ou faz é a Igreja que diz ou faz. Em certas alturas da história, como durante a Reforma e o Iluminismo, em certos países agora, ou entre certos grupos de pessoas, como os intelectuais, parece não existir às vezes desporto mais popular do que bater na Igreja ou, equivalentemente, no Papa. É também o desporto mais cobarde. A Igreja é uma instituição feminina, ela sempre se intitulou a Santa Madre Igreja, nunca o Santo Padre Igreja. Ela é uma Figura de Mulher. Ela é a Matilde dos meus posts anteriores. E, por isso, não consegue responder às agressões. Não tem exército, e quando algum dos seus membros é agredido, incluindo o Papa - e sobretudo o Papa - ele não pode responder. Os seus membros estão submetidos a um código de conduta tal que, quando lhes batem numa face, [é suposto] eles oferecer[em] a outra. O Papa ou a Igreja defendem-se obviamente mal. Não se defendem de todo. Se alguém lança uma calunia sobre o Papa, ele não pode responder lançando uma calúnia de volta; se alguém o insulta, Ele não pode insultar em troca; se alguém o difama, Ele não pode difamar também; se alguém o acusa, Ele não pode retribuir a acusação. Não existe nada de mais fácil, e também de mais desprezível, do que bater na Igreja, sobretudo no Papa. Os valentões que batem na Igreja ou no Papa são os mesmos que estão prontos a bater em mulheres ou em qualquer pessoa indefesa. Normalmente são os mesmos que não são capazes de bater em homens, porque sabem o que é que lhes acontecia. Não faltam valentões destes na história desde a Reforma e o Iluminismo. E em Portugal, então - mas é justo que se diga, não apenas em Portugal -, os intelectuais mais agressivos começam sempre por bater na Igreja, porque não conseguem bater em mais ninguém, sobretudo que seja homem.»
Igreja sofre como Cristo
A Igreja configurada, no sofrimento, ao seu Esposo, Cristo Salvador:
Isaías 53:2-12:
«2O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente, 3desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado. 4Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. 5Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas. 6Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. 7Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. 8Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. 10Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. 11Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime deles. 12Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos, e sofreu pelos culpados.»
Pseudopolémica, mais lama
Ao que parece, o mundo acordou hoje para mais uma polémica envolvendo a Igreja, a propósito dos hediondos actos de pedofilia perpetrados por alguns dos seus ministros e que tem servido de lama para atirar à face imaculada da Esposa de Cristo.
Desta vez, é a algumas palavras atribuídas a Raniero Cantalamessa, pregador do Papa, que os fiscais do pensamento correcto se atiram ― sempre em busca de munições para flagelar a Igreja ―, num súbito zelo de afectado filo-semitismo para consumo imediato, do qual se hão-de esquecer instantaneamente na próxima campanha de ataques aos judeus a levar a cabo pelos seus aliados islâmicos, esses mesmos que negam a Solução Final nacional-socialista, da qual foram cúmplices ideológicos e efectivos.
Para que o leitor possa julgar por si mesmo as razões, ou a falta delas, para esta pseudopolémica, colo a parte relevante da pregação de Cantalamessa, publicada pela Zenit.
Não deixa de ser irónico que esta onda de ataques à Igreja ocorra justamente na Semana Santa, proporcionando aos cristãos ocasião de se configurarem com o seu Salvador, injustamente acusado, preso, aviltado, julgado com falsos testemunhos por juízes iníquos e por um procurador tíbio, condenado a pedido da turba manipulada pelos defensores da ortodoxia dominante, o qual, esbofeteado quando responde, aceita em silêncio o seu suplício:
De Sancta Ecclesia et Catholica
scripsit in universitate Tübingense Josephus Ratzinger dum erat presbyterus æstate anni 1967 Domini. Legite has paginas (248-253,262) ex secundo capitulo partis tertiæ suarum prælectionum in Symbolum Apostolicum introductorum in Christianismum, vulgo germanico originali "Einführung in das Christentum ― Vorlesungen über das Apostolische Glaubensbekenntnis" et lusitano translato "Introdução ao Cristianismo ― Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico»":
A principal questão suscitada pelo último artigo da fé é a questão da Igreja. (...)
«[Creio] na Santa Igreja Católica»
Claro está que não pode ser nossa intenção desenvolver, no presente contexto, uma doutrina completa da Igreja; prescindindo das questões teológico-técnicas isoladas, tentaremos apenas identificar brevemente o verdadeiro motivo da irritação que nos acomete e atrapalha quando pronunciamos a fórmula «Santa Igreja Católica», procurando, então, encontrar uma resposta condizente com a intenção implícita no texto da própria profissão de fé. Nessas reflexões devemos ter sempre presentes os pressupostos destacados anteriormente quando falámos do lugar espiritual e do nexo interno dessas palavras que, por um lado, estão ligadas à profissão de fé na actuação poderosa do Espírito Santo na história e, por outro lado, encontram a sua interpretação nas referências à remissão dos pecados e à comunhão dos santos, em que se ressalta o Baptismo, a Penitência e a Eucaristia como aspectos constitutivos da Igreja, como o seu conteúdo propriamente dito e o seu verdadeiro modo de existir.
Pode ser que muitas das objecções despertadas pela profissão de fé na Igreja já possam ser descartadas pela simples consideração deste duplo nexo. Mesmo assim, convém exteriorizar aqui o que nos aflige nesta passagem. Se formos sinceros, teremos de admitir que gostaríamos de afirmar que a Igreja não é nem santa, nem católica. O próprio Concílio Vaticano II teve a coragem de não falar apenas da Igreja santa, mas também da Igreja pecadora; se há uma crítica a fazer ao concílio, só pode ser a de ter sido até muito tímido na sua afirmação tendo em vista a intensidade da impressão de pecaminosidade da Igreja na consciência de todos nós. Pode ser que essa impressão esteja parcialmente condicionada pela teologia luterana do pecado e, por isso, também por uma pressuposição derivada de posicionamentos dogmáticos antecipados. Mas o que torna essa «dogmática» tão convincente é a sua congruência com a nossa experiência. Os séculos de história da Igreja estão tão cheios de todo o tipo de falhas humanas que até podemos compreender a visão horrenda de Dante, que viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babilónia, ou julgar compreensíveis as terríveis palavras do bispo de Paris, Guilherme de Auvérnia, que no século XIII achava que qualquer um devia ficar horrorizado diante da selvajaria reinante na Igreja: «Já não é uma noiva, mas antes um monstro terrivelmente deformado e feroz [...]».
Para além da santidade da Igreja, parece-nos questionável também a sua catolicidade. A túnica de uma só peça do Senhor foi rasgada em pedaços pelos grupos contraentes e a Igreja una foi dividida em muitas igrejas, cada uma das quais afirma com mais ou menos intensidade ser a única autêntica. Desta maneira, a Igreja tornou-se hoje para muitos o principal obstáculo à fé. Eles só conseguem ver os esforços humanos em demanda do poder e as tácticas mesquinhas daqueles que, afirmando serem os administradores oficiais do cristianismo, mais parecem atrapalhar a manifestação do verdadeiro espírito cristão.
Não há nenhuma teoria que possa refutar definitivamente estes pensamentos de fundo meramente racional; por outro lado, eles também não são de origem puramente racional, misturados que estão com a amargura de um coração eventualmente muito decepcionado com as suas expectativas elevadas e que, no seu amor magoado e ferido, só é capaz de sentir que se desmorona a sua esperança. Como responder, então? Em última análise, só nos resta confessar o motivo que nos leva, apesar de tudo isso, a amar esta Igreja na fé, a ousar reconhecer, mesmo por detrás desse rosto desfigurado, o rosto da santa Igreja. Mas comecemos, mesmo assim, pelos elementos objectivos. Já vimos que a palavra «santa», em todos esses enunciados, não se refere à santidade de pessoas humanas ― trata-se, na verdade, de uma alusão ao dom divino que concede a santidade no meio da imperfeição humana. No «Símbolo», a Igreja não é qualificada de «santa» por se pensar que os seus membros são todos seres humanos santos e sem pecados; esse sonho, que reaparece em todos os séculos, não combina com o contexto lúcido do nosso texto, por mais que corresponda à expressão de um desejo profundo do ser humano, que não o abandonará até que um novo céu e uma nova terra lhe dêem realmente o que este nosso mundo não é capaz de lhe proporcionar. Quanto a este aspecto, já podemos afirmar que os maiores críticos da Igreja do nosso tempo também alimentam, inconscientemente, esse sonho; e, como ficam decepcionados, fecham violentamente a porta de casa e partem para a denúncia do logro. Mas, voltemos ao ponto de partida: a santidade da Igreja consiste naquele poder de santificação que Deus exerce nela apesar da pecaminosidade humana. É esse o verdadeiro sinal da «nova aliança»: em Cristo, o próprio Deus prendeu-Se aos homens, deixou-Se prender por eles. A Nova Aliança já não se baseia no cumprimento mútuo do acordo, porque ela é graça concedida por Deus, a qual não recua diante da infidelidade do ser humano. Ela é a expressão do amor de Deus que não se deixa vencer pela incapacidade do ser humano; pelo contrário, Deus quer bem ao ser humano apesar de tudo e sem cessar; aceita-o precisamente como ser pecador, dirigindo-Se-Ihe para o santificar e amar.
Como a liberalidade da entrega do Senhor nunca foi revogada, a Igreja continua a ser sempre santificada por Ele e é nela que a santidade do Senhor se torna presente entre os homens. É verdadeiramente a santidade do Senhor que se torna presente e que escolhe como receptáculo da sua presença, num amor paradoxal, também e precisamente as mãos sujas dos homens. Ela é santidade que resplandece como a santidade de Cristo no meio do pecado da Igreja. Assim, a figura paradoxal da Igreja, em que o divino tantas vezes se apresenta em mãos indignas e se faz presente sempre e apenas sob a forma da não-obstância, é para os fiéis um sinal da não-obstância do amor de Deus, que é sempre maior. Esse encadeamento estimulante entre a fidelidade de Deus e a infidelidade do ser humano que marca a estrutura da Igreja é, por assim dizer, a estrutura dramática da graça, pela qual a realidade desta última, como agraciamento dos que são em si mesmos indignos, se torna presença constante e visível na história. Poderíamos até afirmar que a Igreja, precisamente por causa da sua estrutura paradoxal, feita de santidade e imperfeição, é a figura da graça neste mundo.
Demos mais um passo em frente. No sonho humano de um mundo perfeito, a santidade é imaginada como isenção do pecado e do mal, e não como algo que se mistura com eles; ela permanece sempre uma espécie de pensamento a preto e branco que elimina e condena implacavelmente a respectiva forma negativa (que pode ser vista de muitas maneiras). Na actual crítica da sociedade e nas acções em que ela se cristaliza, manifesta-se novamente com toda a nitidez essa tendência implacável própria dos ideais humanos. O que escandalizava os contemporâneos de Jesus em relação à sua santidade era a ausência absoluta de uma atitude julgadora: Ele nem lançava um raio sobre os indignos, nem autorizava os zelosos a arrancarem a erva daninha que viam proliferar. Pelo contrário, a sua santidade manifestava-se precisamente na promiscuidade, com os pecadores que eram atraídos por Jesus; essa mistura indiscriminada chegou ao ponto de Ele mesmo ser transformado «em pecado», tendo de carregar, pela sua execução, a maldição da lei, que o levou a associar inteiramente o seu destino ao dos perdidos (cf. 2Cor 5, 21; Gal 3, 13). Ele atraiu a Si o pecado, fazendo com que este se tornasse parte d'Ele, para assim revelar o que é a verdadeira «santidade»: não discriminação, mas união, não julgamento, mas amor que salva. Não é a Igreja simplesmente a continuação dessa atitude de Deus que se mistura com a miserabilidade humana? Não é ela a continuação da comensalidade de Jesus com os pecadores, mediante a qual Ele se misturou com a aflição do pecado a ponto de parecer sucumbir nele? Não se revela na santidade imperfeita da Igreja diante das expectativas humanas de pureza a verdadeira santidade de Deus, que é amor, um amor que não se mantém na distância aristocrática do puro e intocável, mas se mistura com a sujidade do mundo para a superar? Nesta perspectiva, caberá à santidade da Igreja ser outra coisa que não sustentáculo mútuo, devido ao facto de todos serem, afinal, suportados por Cristo?
Confesso que, para mim, essa santidade imperfeita da Igreja é um consolo infinito. Não deveríamos desesperar diante de uma santidade que fosse imaculada e que só pudesse manifestar-se julgando-nos e queimando-nos? E quem poderá afirmar que não precisa de ser apoiado e sustentado pelos outros? E como poderia alguém que vive da tolerância dos outros recusar o exercício da tolerância da sua parte? Não será ela a única retribuição que ele tem para oferecer? Não será esse o único consolo que lhe resta: apoiar tal como ele próprio é apoiado? A santidade da Igreja começa com o apoio e leva à sustentação; quando já não há apoio, deixa de existir também a sustentação, e uma existência sem sustentáculos só pode cair no vazio. Não me importa a afirmação de que estas palavras são a expressão de uma existência débil e fraca ― é próprio do cristianismo aceitar a impossibilidade da autarquia e a sua própria fraqueza. No fundo, é sempre um orgulho esconso aquele que age na crítica amargurada e biliosa contra a Igreja, uma crítica que já começa a tornar-se moda. Infelizmente, ela faz-se acompanhar, em muitos casos, por um vazio espiritual que nem permite ao seu autor ver a própria essência da Igreja, que é encarada apenas como uma entidade com fins políticos, cuja organização é vista como patética ou brutal, como se a essência da Igreja não estivesse numa realidade que está para além da organização, onde há o consolo pela palavra e pelos sacramentos que ela concede nos bons e nos maus momentos. Os verdadeiros fiéis não dão muita importância à luta em torno da reorganização das formas da Igreja, porque vivem daquilo que ela sempre foi e é. Para saber o que é propriamente a Igreja, é necessário aproximar-se deles. A Igreja não está em primeiro lugar nos órgãos que a organizam, reformam, governam, e sim naqueles que simplesmente crêem e recebem nela o dom da fé que se torna a sua vida. Só quem experimentou, para além das mudanças dos seus servidores e das suas formas, a acção da Igreja nas pessoas, confortando-as, dando-lhes um lar e uma esperança, um lar que é esperança ― caminho para a vida eterna ―, só quem teve essa experiência sabe o que é a Igreja, tanto no passado como no presente.
Não estou a querer afirmar que tudo deve continuar sempre como está e que é necessário aguentar as coisas tal como elas são. A atitude de suportar pode transformar-se num processo muito activo quando acompanhada de uma luta por fazer com que a própria Igreja se realize cada vez mais sustentando e suportando. A Igreja só vive dentro de nós, ela vive da luta da imperfeição que busca a perfeição, e essa luta vive por sua vez do dom de Deus, sem o qual nem sequer existiria. Mas essa luta só poderá ser fecunda e construtiva se for animada pelo espírito da tolerância e do verdadeiro amor. Com isso chegamos ao critério que deve servir sempre de parâmetro na luta crítica pelo aperfeiçoamento da santidade, a qual, não se opondo à tolerância, é até exigida por ela. Esse parâmetro é a construção. Uma amargura que só destrói condena-se a si mesma. Uma porta que se fecha com estrondo pode até transformar-se num sinal para despertar aqueles que se encontram dentro de casa. Mas é uma ilusão imaginar que se pode construir mais no isolamento do que na cooperação, assim como é uma ilusão pensar numa Igreja dos «santos» em vez de numa «Igreja santa», que é santa porque nela o Senhor distribui o dom da santidade imerecida.
Com isto chegamos à outra palavra que o «Credo» usa para qualificar a Igreja: «católica». São muitas as nuances de sentido que acompanham este termo desde a sua origem. Mas existe nele uma ideia principal que pode ser comprovada desde o início: trata-se de uma palavra que remete duplamente para a unidade da Igreja; em primeiro lugar, ela indica a unidade local da Igreja: só a comunidade unida ao bispo é «Igreja Católica»; os grupos que se separaram dessa Igreja local por qualquer razão não são «católicos». Em segundo lugar, o termo refere-se à unidade das muitas igrejas locais entre si; elas não podem fechar-se em si mesmas, pois, para serem Igreja, precisam de estar abertas umas às outras, formando a Igreja una no testemunho comum da palavra e na comunhão da mesa eucarística que recebe a todos em qualquer lugar. Nas explicações antigas do «Credo», a Igreja «católica» é comparada com aquelas «igrejas» que só existem «nas suas respectivas províncias», o que contrasta, portanto, com o verdadeiro ser Igreja.
Estão implícitas, portanto, no atributo «católica» a estrutura episcopal da Igreja e a necessidade da união de todos os bispos entre si; o «Símbolo» não faz nenhuma alusão à cristalização dessa união na sé de Roma. Mas isso não deve levar à conclusão de que esse ponto de orientação da unidade seja apenas fruto de um desenvolvimento secundário. Em Roma, onde o nosso Símbolo tomou forma, essa ideia passou logo a ser parte evidente do seu sentido. É correcto, no entanto, dizer que esse enunciado não faz parte dos elementos primários do conceito de Igreja, e de modo algum pode ser considerado a sua verdadeira base. Os elementos fundamentais da Igreja são o perdão, a conversão, a penitência, a comunhão eucarística e, a partir dela, a pluralidade e a unidade: a pluralidade de igrejas locais que só podem ser consideradas Igreja na medida em que se inserem no organismo da Igreja una. O conteúdo da unidade é formado sobretudo pela palavra e pelo sacramento: a Igreja é una pela palavra una e pelo pão uno. A estrutura episcopal aparece no fundo como meio dessa unidade. Ela não tem a sua razão de ser em si mesma, pois faz parte da ordem dos meios cuja função pode ser descrita pela preposição final «para»: ela está a serviço da unidade das igrejas locais em si e entre si. Um estádio seguinte na ordem dos meios poderia ser descrito, então, pelo serviço do bispo de Roma.
O que fica claro é que a Igreja não deve ser pensada em termos de organização; a organização é que deve ser entendida em função da Igreja. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se que, para a Igreja visível, a unidade visível é mais do que «organização». A unidade concreta da fé comum a ser testemunhada na palavra e na mesa comum de Jesus Cristo é parte essencial do sinal que a Igreja deve erguer no mundo. Ela só corresponde à exigência da profissão de fé na medida em que é «católica», isto é, visivelmente una na pluralidade. Num mundo dividido, cabe-lhe ser o sinal e o meio da unidade, superando e unindo nações, raças e classes sociais. Sabemos que ela fracassa constantemente também nessa tarefa; já na Antiguidade teve muita dificuldade em ser a Igreja simultaneamente dos bárbaros e dos Romanos; nos tempos modernos, não conseguiu evitar a luta entre as próprias nações cristãs, e ainda hoje não consegue unir ricos e pobres de tal maneira que a abundância duns se transforme em meio de saciar a fome dos outros, pelo que o sinal da comensalidade continua por realizar. Mesmo assim, não devemos esquecer os inúmeros imperativos que o parâmetro da catolicidade acabou por produzir. E sobretudo, em vez de acertar contas com o passado, atender ao chamamento do presente, não só professando a catolicidade no «Credo», mas também tentando realizá-la na vida do nosso mundo despedaçado.
(...) A meta do cristão não é uma determinada bem-aventurança, mas sim o todo. Ele crê em Cristo e por isso crê no futuro do mundo, e não apenas no seu próprio futuro. Ele sabe que esse futuro é mais do que ele próprio poderia criar. E que existe uma razão de ser que ele não seria capaz sequer de destruir. Poderá então ficar descansado, à espera dos acontecimentos? Pelo contrário: como sabe que existe uma razão de ser, pode e deve empenhar-se com alegria e sem temor na realização da obra da história, mesmo que o seu pequeno campo de visão lhe dê a impressão de que tudo não passa de um trabalho de Sísifo em que a pedra do destino humano é empurrada monte acima por cada nova geração, para no fim despencar de novo, frustrando todos os esforços anteriores. Quem crê sabe que existe um «adiante», que não andamos em círculo. Quem crê sabe que a história não se assemelha ao tapete de Penélope, que é sempre urdido para, depois, ser novamente desfeito. Pode ser que os cristãos também sejam atacados pelos pesadelos do temor e da inutilidade que levaram o mundo pré-cristão a criar imagens tão comoventes da frustração diante da vanidade do esforço humano. Mas nesse pesadelo ressoa a voz salvadora e transformadora da realidade: «Tende confiança, eu venci o mundo!» (Jo 16, 33). O novo mundo, que é representado pela imagem da Jerusalém definitiva com que termina a Bíblia, não é uma utopia ― é a certeza ao encontro da qual caminhamos na fé. Há uma salvação do mundo ― é essa a confiança que sustenta o cristão, e que faz com que também valha a pena ser cristão nos dias de hoje.
A principal questão suscitada pelo último artigo da fé é a questão da Igreja. (...)
«[Creio] na Santa Igreja Católica»
Claro está que não pode ser nossa intenção desenvolver, no presente contexto, uma doutrina completa da Igreja; prescindindo das questões teológico-técnicas isoladas, tentaremos apenas identificar brevemente o verdadeiro motivo da irritação que nos acomete e atrapalha quando pronunciamos a fórmula «Santa Igreja Católica», procurando, então, encontrar uma resposta condizente com a intenção implícita no texto da própria profissão de fé. Nessas reflexões devemos ter sempre presentes os pressupostos destacados anteriormente quando falámos do lugar espiritual e do nexo interno dessas palavras que, por um lado, estão ligadas à profissão de fé na actuação poderosa do Espírito Santo na história e, por outro lado, encontram a sua interpretação nas referências à remissão dos pecados e à comunhão dos santos, em que se ressalta o Baptismo, a Penitência e a Eucaristia como aspectos constitutivos da Igreja, como o seu conteúdo propriamente dito e o seu verdadeiro modo de existir.
Pode ser que muitas das objecções despertadas pela profissão de fé na Igreja já possam ser descartadas pela simples consideração deste duplo nexo. Mesmo assim, convém exteriorizar aqui o que nos aflige nesta passagem. Se formos sinceros, teremos de admitir que gostaríamos de afirmar que a Igreja não é nem santa, nem católica. O próprio Concílio Vaticano II teve a coragem de não falar apenas da Igreja santa, mas também da Igreja pecadora; se há uma crítica a fazer ao concílio, só pode ser a de ter sido até muito tímido na sua afirmação tendo em vista a intensidade da impressão de pecaminosidade da Igreja na consciência de todos nós. Pode ser que essa impressão esteja parcialmente condicionada pela teologia luterana do pecado e, por isso, também por uma pressuposição derivada de posicionamentos dogmáticos antecipados. Mas o que torna essa «dogmática» tão convincente é a sua congruência com a nossa experiência. Os séculos de história da Igreja estão tão cheios de todo o tipo de falhas humanas que até podemos compreender a visão horrenda de Dante, que viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babilónia, ou julgar compreensíveis as terríveis palavras do bispo de Paris, Guilherme de Auvérnia, que no século XIII achava que qualquer um devia ficar horrorizado diante da selvajaria reinante na Igreja: «Já não é uma noiva, mas antes um monstro terrivelmente deformado e feroz [...]».
Para além da santidade da Igreja, parece-nos questionável também a sua catolicidade. A túnica de uma só peça do Senhor foi rasgada em pedaços pelos grupos contraentes e a Igreja una foi dividida em muitas igrejas, cada uma das quais afirma com mais ou menos intensidade ser a única autêntica. Desta maneira, a Igreja tornou-se hoje para muitos o principal obstáculo à fé. Eles só conseguem ver os esforços humanos em demanda do poder e as tácticas mesquinhas daqueles que, afirmando serem os administradores oficiais do cristianismo, mais parecem atrapalhar a manifestação do verdadeiro espírito cristão.
Não há nenhuma teoria que possa refutar definitivamente estes pensamentos de fundo meramente racional; por outro lado, eles também não são de origem puramente racional, misturados que estão com a amargura de um coração eventualmente muito decepcionado com as suas expectativas elevadas e que, no seu amor magoado e ferido, só é capaz de sentir que se desmorona a sua esperança. Como responder, então? Em última análise, só nos resta confessar o motivo que nos leva, apesar de tudo isso, a amar esta Igreja na fé, a ousar reconhecer, mesmo por detrás desse rosto desfigurado, o rosto da santa Igreja. Mas comecemos, mesmo assim, pelos elementos objectivos. Já vimos que a palavra «santa», em todos esses enunciados, não se refere à santidade de pessoas humanas ― trata-se, na verdade, de uma alusão ao dom divino que concede a santidade no meio da imperfeição humana. No «Símbolo», a Igreja não é qualificada de «santa» por se pensar que os seus membros são todos seres humanos santos e sem pecados; esse sonho, que reaparece em todos os séculos, não combina com o contexto lúcido do nosso texto, por mais que corresponda à expressão de um desejo profundo do ser humano, que não o abandonará até que um novo céu e uma nova terra lhe dêem realmente o que este nosso mundo não é capaz de lhe proporcionar. Quanto a este aspecto, já podemos afirmar que os maiores críticos da Igreja do nosso tempo também alimentam, inconscientemente, esse sonho; e, como ficam decepcionados, fecham violentamente a porta de casa e partem para a denúncia do logro. Mas, voltemos ao ponto de partida: a santidade da Igreja consiste naquele poder de santificação que Deus exerce nela apesar da pecaminosidade humana. É esse o verdadeiro sinal da «nova aliança»: em Cristo, o próprio Deus prendeu-Se aos homens, deixou-Se prender por eles. A Nova Aliança já não se baseia no cumprimento mútuo do acordo, porque ela é graça concedida por Deus, a qual não recua diante da infidelidade do ser humano. Ela é a expressão do amor de Deus que não se deixa vencer pela incapacidade do ser humano; pelo contrário, Deus quer bem ao ser humano apesar de tudo e sem cessar; aceita-o precisamente como ser pecador, dirigindo-Se-Ihe para o santificar e amar.
Como a liberalidade da entrega do Senhor nunca foi revogada, a Igreja continua a ser sempre santificada por Ele e é nela que a santidade do Senhor se torna presente entre os homens. É verdadeiramente a santidade do Senhor que se torna presente e que escolhe como receptáculo da sua presença, num amor paradoxal, também e precisamente as mãos sujas dos homens. Ela é santidade que resplandece como a santidade de Cristo no meio do pecado da Igreja. Assim, a figura paradoxal da Igreja, em que o divino tantas vezes se apresenta em mãos indignas e se faz presente sempre e apenas sob a forma da não-obstância, é para os fiéis um sinal da não-obstância do amor de Deus, que é sempre maior. Esse encadeamento estimulante entre a fidelidade de Deus e a infidelidade do ser humano que marca a estrutura da Igreja é, por assim dizer, a estrutura dramática da graça, pela qual a realidade desta última, como agraciamento dos que são em si mesmos indignos, se torna presença constante e visível na história. Poderíamos até afirmar que a Igreja, precisamente por causa da sua estrutura paradoxal, feita de santidade e imperfeição, é a figura da graça neste mundo.
Demos mais um passo em frente. No sonho humano de um mundo perfeito, a santidade é imaginada como isenção do pecado e do mal, e não como algo que se mistura com eles; ela permanece sempre uma espécie de pensamento a preto e branco que elimina e condena implacavelmente a respectiva forma negativa (que pode ser vista de muitas maneiras). Na actual crítica da sociedade e nas acções em que ela se cristaliza, manifesta-se novamente com toda a nitidez essa tendência implacável própria dos ideais humanos. O que escandalizava os contemporâneos de Jesus em relação à sua santidade era a ausência absoluta de uma atitude julgadora: Ele nem lançava um raio sobre os indignos, nem autorizava os zelosos a arrancarem a erva daninha que viam proliferar. Pelo contrário, a sua santidade manifestava-se precisamente na promiscuidade, com os pecadores que eram atraídos por Jesus; essa mistura indiscriminada chegou ao ponto de Ele mesmo ser transformado «em pecado», tendo de carregar, pela sua execução, a maldição da lei, que o levou a associar inteiramente o seu destino ao dos perdidos (cf. 2Cor 5, 21; Gal 3, 13). Ele atraiu a Si o pecado, fazendo com que este se tornasse parte d'Ele, para assim revelar o que é a verdadeira «santidade»: não discriminação, mas união, não julgamento, mas amor que salva. Não é a Igreja simplesmente a continuação dessa atitude de Deus que se mistura com a miserabilidade humana? Não é ela a continuação da comensalidade de Jesus com os pecadores, mediante a qual Ele se misturou com a aflição do pecado a ponto de parecer sucumbir nele? Não se revela na santidade imperfeita da Igreja diante das expectativas humanas de pureza a verdadeira santidade de Deus, que é amor, um amor que não se mantém na distância aristocrática do puro e intocável, mas se mistura com a sujidade do mundo para a superar? Nesta perspectiva, caberá à santidade da Igreja ser outra coisa que não sustentáculo mútuo, devido ao facto de todos serem, afinal, suportados por Cristo?
Confesso que, para mim, essa santidade imperfeita da Igreja é um consolo infinito. Não deveríamos desesperar diante de uma santidade que fosse imaculada e que só pudesse manifestar-se julgando-nos e queimando-nos? E quem poderá afirmar que não precisa de ser apoiado e sustentado pelos outros? E como poderia alguém que vive da tolerância dos outros recusar o exercício da tolerância da sua parte? Não será ela a única retribuição que ele tem para oferecer? Não será esse o único consolo que lhe resta: apoiar tal como ele próprio é apoiado? A santidade da Igreja começa com o apoio e leva à sustentação; quando já não há apoio, deixa de existir também a sustentação, e uma existência sem sustentáculos só pode cair no vazio. Não me importa a afirmação de que estas palavras são a expressão de uma existência débil e fraca ― é próprio do cristianismo aceitar a impossibilidade da autarquia e a sua própria fraqueza. No fundo, é sempre um orgulho esconso aquele que age na crítica amargurada e biliosa contra a Igreja, uma crítica que já começa a tornar-se moda. Infelizmente, ela faz-se acompanhar, em muitos casos, por um vazio espiritual que nem permite ao seu autor ver a própria essência da Igreja, que é encarada apenas como uma entidade com fins políticos, cuja organização é vista como patética ou brutal, como se a essência da Igreja não estivesse numa realidade que está para além da organização, onde há o consolo pela palavra e pelos sacramentos que ela concede nos bons e nos maus momentos. Os verdadeiros fiéis não dão muita importância à luta em torno da reorganização das formas da Igreja, porque vivem daquilo que ela sempre foi e é. Para saber o que é propriamente a Igreja, é necessário aproximar-se deles. A Igreja não está em primeiro lugar nos órgãos que a organizam, reformam, governam, e sim naqueles que simplesmente crêem e recebem nela o dom da fé que se torna a sua vida. Só quem experimentou, para além das mudanças dos seus servidores e das suas formas, a acção da Igreja nas pessoas, confortando-as, dando-lhes um lar e uma esperança, um lar que é esperança ― caminho para a vida eterna ―, só quem teve essa experiência sabe o que é a Igreja, tanto no passado como no presente.
Não estou a querer afirmar que tudo deve continuar sempre como está e que é necessário aguentar as coisas tal como elas são. A atitude de suportar pode transformar-se num processo muito activo quando acompanhada de uma luta por fazer com que a própria Igreja se realize cada vez mais sustentando e suportando. A Igreja só vive dentro de nós, ela vive da luta da imperfeição que busca a perfeição, e essa luta vive por sua vez do dom de Deus, sem o qual nem sequer existiria. Mas essa luta só poderá ser fecunda e construtiva se for animada pelo espírito da tolerância e do verdadeiro amor. Com isso chegamos ao critério que deve servir sempre de parâmetro na luta crítica pelo aperfeiçoamento da santidade, a qual, não se opondo à tolerância, é até exigida por ela. Esse parâmetro é a construção. Uma amargura que só destrói condena-se a si mesma. Uma porta que se fecha com estrondo pode até transformar-se num sinal para despertar aqueles que se encontram dentro de casa. Mas é uma ilusão imaginar que se pode construir mais no isolamento do que na cooperação, assim como é uma ilusão pensar numa Igreja dos «santos» em vez de numa «Igreja santa», que é santa porque nela o Senhor distribui o dom da santidade imerecida.
Com isto chegamos à outra palavra que o «Credo» usa para qualificar a Igreja: «católica». São muitas as nuances de sentido que acompanham este termo desde a sua origem. Mas existe nele uma ideia principal que pode ser comprovada desde o início: trata-se de uma palavra que remete duplamente para a unidade da Igreja; em primeiro lugar, ela indica a unidade local da Igreja: só a comunidade unida ao bispo é «Igreja Católica»; os grupos que se separaram dessa Igreja local por qualquer razão não são «católicos». Em segundo lugar, o termo refere-se à unidade das muitas igrejas locais entre si; elas não podem fechar-se em si mesmas, pois, para serem Igreja, precisam de estar abertas umas às outras, formando a Igreja una no testemunho comum da palavra e na comunhão da mesa eucarística que recebe a todos em qualquer lugar. Nas explicações antigas do «Credo», a Igreja «católica» é comparada com aquelas «igrejas» que só existem «nas suas respectivas províncias», o que contrasta, portanto, com o verdadeiro ser Igreja.
Estão implícitas, portanto, no atributo «católica» a estrutura episcopal da Igreja e a necessidade da união de todos os bispos entre si; o «Símbolo» não faz nenhuma alusão à cristalização dessa união na sé de Roma. Mas isso não deve levar à conclusão de que esse ponto de orientação da unidade seja apenas fruto de um desenvolvimento secundário. Em Roma, onde o nosso Símbolo tomou forma, essa ideia passou logo a ser parte evidente do seu sentido. É correcto, no entanto, dizer que esse enunciado não faz parte dos elementos primários do conceito de Igreja, e de modo algum pode ser considerado a sua verdadeira base. Os elementos fundamentais da Igreja são o perdão, a conversão, a penitência, a comunhão eucarística e, a partir dela, a pluralidade e a unidade: a pluralidade de igrejas locais que só podem ser consideradas Igreja na medida em que se inserem no organismo da Igreja una. O conteúdo da unidade é formado sobretudo pela palavra e pelo sacramento: a Igreja é una pela palavra una e pelo pão uno. A estrutura episcopal aparece no fundo como meio dessa unidade. Ela não tem a sua razão de ser em si mesma, pois faz parte da ordem dos meios cuja função pode ser descrita pela preposição final «para»: ela está a serviço da unidade das igrejas locais em si e entre si. Um estádio seguinte na ordem dos meios poderia ser descrito, então, pelo serviço do bispo de Roma.
O que fica claro é que a Igreja não deve ser pensada em termos de organização; a organização é que deve ser entendida em função da Igreja. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se que, para a Igreja visível, a unidade visível é mais do que «organização». A unidade concreta da fé comum a ser testemunhada na palavra e na mesa comum de Jesus Cristo é parte essencial do sinal que a Igreja deve erguer no mundo. Ela só corresponde à exigência da profissão de fé na medida em que é «católica», isto é, visivelmente una na pluralidade. Num mundo dividido, cabe-lhe ser o sinal e o meio da unidade, superando e unindo nações, raças e classes sociais. Sabemos que ela fracassa constantemente também nessa tarefa; já na Antiguidade teve muita dificuldade em ser a Igreja simultaneamente dos bárbaros e dos Romanos; nos tempos modernos, não conseguiu evitar a luta entre as próprias nações cristãs, e ainda hoje não consegue unir ricos e pobres de tal maneira que a abundância duns se transforme em meio de saciar a fome dos outros, pelo que o sinal da comensalidade continua por realizar. Mesmo assim, não devemos esquecer os inúmeros imperativos que o parâmetro da catolicidade acabou por produzir. E sobretudo, em vez de acertar contas com o passado, atender ao chamamento do presente, não só professando a catolicidade no «Credo», mas também tentando realizá-la na vida do nosso mundo despedaçado.
(...) A meta do cristão não é uma determinada bem-aventurança, mas sim o todo. Ele crê em Cristo e por isso crê no futuro do mundo, e não apenas no seu próprio futuro. Ele sabe que esse futuro é mais do que ele próprio poderia criar. E que existe uma razão de ser que ele não seria capaz sequer de destruir. Poderá então ficar descansado, à espera dos acontecimentos? Pelo contrário: como sabe que existe uma razão de ser, pode e deve empenhar-se com alegria e sem temor na realização da obra da história, mesmo que o seu pequeno campo de visão lhe dê a impressão de que tudo não passa de um trabalho de Sísifo em que a pedra do destino humano é empurrada monte acima por cada nova geração, para no fim despencar de novo, frustrando todos os esforços anteriores. Quem crê sabe que existe um «adiante», que não andamos em círculo. Quem crê sabe que a história não se assemelha ao tapete de Penélope, que é sempre urdido para, depois, ser novamente desfeito. Pode ser que os cristãos também sejam atacados pelos pesadelos do temor e da inutilidade que levaram o mundo pré-cristão a criar imagens tão comoventes da frustração diante da vanidade do esforço humano. Mas nesse pesadelo ressoa a voz salvadora e transformadora da realidade: «Tende confiança, eu venci o mundo!» (Jo 16, 33). O novo mundo, que é representado pela imagem da Jerusalém definitiva com que termina a Bíblia, não é uma utopia ― é a certeza ao encontro da qual caminhamos na fé. Há uma salvação do mundo ― é essa a confiança que sustenta o cristão, e que faz com que também valha a pena ser cristão nos dias de hoje.
Publicado por
Francisco Miguel dos Santos Ramos Vilaça Lopes
sobre:
Bento XVI,
Igreja,
luteranismo
e
Tübingen, Germany
31.3.10
«Como calar a Igreja?»
De Bruno Mastroianni, a seguir, já na nossa lista de fontes, na coluna da direita.
«Problema: come si fa a zittire la Chiesa? È incontrollabile dal punto di vista economico (non agisce per lucro), inattaccabile da quello culturale (non ha paura di dire la sua controcorrente), è molto presente a livello sociale nella vita delle persone. Soluzione: bisogna agire sul terreno dell’emotività, magari con delle accuse odiose al suo capofila. Non importa se infondate, vecchie e già chiuse, basta tirarle fuori una alla volta, in modo che rimanga un’impressione sgradevole sul Papa. Così è stato fatto. A partire da suo fratello, con episodi (degli anni Cinquanta!) a cui era estraneo, tanto per inserire un “Ratzinger” nei titoli. Per proseguire con il caso di “padre H” a Monaco (anche questo antico e strachiuso) tanto per nominare l’“arcivescovo Ratzinger”. E poi il New York Times, smentito dalle stesse carte che produceva (tanto chi si prende la briga di leggerle?). E poi la serie di antichità pedofiliache che ci stanno ammorbando da settimane. È una procedura vecchia come la storia del mondo: quando una cultura dominante avverte di non avere più presa, cerca di far fuori le culture concorrenti (più vitali), usando il potere. È successo durante la caduta dell’impero Romano, è successo con il declino dell’Ancien Régime. Non ha mai funzionato. Il marasma mediatico pedofilo-fobico è uno dei tanti sussulti della fine dell’epoca moderna. È l’opposizione scomposta di una certa cultura di fronte al modello di cristiano – libero, razionale e pieno di fede – che Benedetto XVI rappresenta. Impossibile fronteggiarlo sul piano dell’intelligenza.»
28.3.10
Em defesa do Papa Bento XVI
Pedro Arroja, no Portugal Contemporâneo:
«(...) [O] Papa Bento XVI tem muitos adversários internos na Igreja, e especialmente nos EUA, que é o país símbolo da modernidade. Por exemplo, no que diz respeito à vocação sacerdotal, o Papa tem escrito abundantemente sobre o assunto. Para padres ele quer homens de vocação e, por isso, escolhidos a dedo, e, creio eu, homens que sejam verdadeiramente masculinos (daqueles que gostam de mulheres, embora não lhes possam tocar).Em suma, com Bento XVI na cadeira de S. Pedro, acabou-se a bagunçada trazida pelo Concílio Vaticano II.(...)»
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