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26.12.10

Benedictus XVI: «Excita, Domine, potentiam tuam et veni»

Uma vez mais a todos os leitores do blog os sinceros votos de um Sancto Natal e de um novo ano com esperança. Lede por favor este discurso do Santo Padre, um Papa do Futuro, que recorda a oração da Igreja aquando do desmoronamento do Império Romano, e no-la propõe para melhor ultrapassarmos este fim-de-civilização que vai chegando. Deus abençoe este Papa Bemdicto, que já nos abençoou com ele.


DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
POR OCASIÃO DA TROCA DE VOTOS NATALÍCIOS
COM A CÚRIA ROMANA

« Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado,
Amados irmãos e irmãs!



É com vivo prazer que vos revejo, amados Membros do Colégio Cardinalício, Representantes da Cúria Roma e do Governatorato, neste encontro tradicional. Dirijo a cada um a minha cordial saudação, a começar pelo Cardeal Angelo Sodano, a quem agradeço as expressões de estima e comunhão e votos ardentes que me formulou em nome de todos. Prope est jam Dominus, venite, adoremus! Contemplemos como uma única família o mistério do Emanuel, de Deus-connosco, como disse o Cardeal Decano. De bom grado retribuo os votos expressos e desejo agradecer vivamente a todos, incluindo os Representantes Pontifícios espalhados pelo mundo, pela competente e generosa contribuição que cada um presta ao Vigário de Cristo e à Igreja.

«Excita, Domine, potentiam tuam et veni» – com estas e outras palavras semelhantes a liturgia da Igreja reza repetidamente nos dias do Advento. Trata-se de invocações formuladas provavelmente quando o Império Romano estava no seu ocaso. O desmoronamento dos ordenamentos basilares do direito e das atitudes morais de fundo, que lhes davam força, causou a ruptura das margens que até então protegeram a convivência pacífica entre os homens. Um mundo estava no seu ocaso. Frequentes cataclismos naturais aumentavam ainda mais esta experiência de insegurança. E não se vendo qualquer força que pudesse pôr um freio a tal declínio, tanto mais insistente era a invocação da força própria de Deus: que Ele viesse e protegesse os homens de todas estas ameaças.

«Excita, Domine, potentiam tuam et veni». Também hoje temos variados motivos para nos associarmos a esta oração de Advento da Igreja. O mundo, com todas as suas novas esperanças e possibilidades, sente-se ao mesmo tempo angustiado com a impressão de que o consenso moral se esteja a dissolver, um consenso sem o qual as estruturas jurídicas e políticas não funcionam; consequentemente, as forças mobilizadas para a defesa de tais estruturas parecem destinadas ao insucesso.
Excita – a oração lembra o brado dirigido ao Senhor, que estava a dormir na barca dos discípulos fustigada pela tempestade e quase a afundar. Quando a sua palavra potente aplacou a tempestade, Ele censurou os discípulos pela sua pouca fé (cf. Mt 8, 26 e paralelos). Queria dizer: em vós mesmos, adormeceu a fé. E o mesmo nos quer dizer a nós; também em nós, muitíssimas vezes, a fé dorme. Por isso peçamos-Lhe que nos acorde do sono de uma fé que se sente cansada e restitua à fé o poder de mover os montes, isto é, de conferir a ordem justa às coisas do mundo.

«Excita, Domine, potentiam tuam et veni»: nas grandes angústias, a que nos vimos expostos neste ano, voltou-me sem cessar à mente e aos lábios esta oração de Advento. Com grande alegria, tínhamos começado o Ano Sacerdotal e, graças a Deus, pudemos concluí-lo também com imensa gratidão, apesar de se ter desenrolado muito diversamente de como o tínhamos esperado. Em nós, sacerdotes, e nos leigos – concretamente nos jovens – renovou-se a consciência do grande dom que representa o sacerdócio da Igreja Católica, que nos foi confiado pelo Senhor. De novo nos demos conta de como é belo que seres humanos estejam autorizados a pronunciar, em nome de Deus e com pleno poder, a palavra do perdão, tornando-se assim capazes de mudar o mundo, a vida; como é belo que seres humanos estejam autorizados a pronunciar as palavras da consagração, pelas quais o Senhor atrai para dentro de Si um pedaço de mundo, e assim, num determinado lugar, transforma-o na sua substância; como é belo poder estar, com a força do Senhor, junto dos homens nas suas alegrias e sofrimentos, tanto nas horas importantes como nas horas negras da existência; como é belo ter na vida por missão não esta pessoa ou aquela, mas pura e simplesmente o ser mesmo do homem, procurando ajudar para que se abra a Deus e viva a partir de Deus. Com tal consciência, ainda mais atónitos ficámos quando, precisamente neste ano e numa dimensão que não podíamos imaginar, tivemos conhecimento de abusos contra os menores cometidos por sacerdotes, que desvirtuam o Sacramento no seu contrário, sob o manto do sagrado ferem profundamente a pessoa humana na sua infância e causam-lhe um dano para a vida inteira.

Neste contexto, veio-me à mente uma visão de Santa Hildegarda de Bingen, que descreve de modo impressionante o que vivemos neste ano. «No ano de 1170 depois do nascimento de Cristo, estive durante longo tempo doente na cama. Então, física e mentalmente acordada, vi uma mulher de uma beleza tal que a mente humana não é capaz de compreender. A sua figura erguia-se da terra até ao céu. O seu rosto brilhava com um esplendor sublime. O seu olhar estava voltado para o céu. Trajava um vestido luminoso e fulgurante de seda branca e uma manto guarnecido de pedras preciosas. Nos pés, calçava sapatos de ónix. Mas o seu rosto estava salpicado de pó, o seu vestido estava rasgado do lado direito. Também o manto perdera a sua beleza singular e os seus sapatos estavam sujos por cima. Com voz alta e pesarosa, a mulher gritou para o céu: “Escuta, ó céu: o meu rosto está manchado! Aflige-te, ó terra: o meu vestido está rasgado! Treme, ó abismo: os meus sapatos estão sujos!”

E continuou: “Estava escondida no coração do Pai, até que o Filho do Homem, concebido e dado à luz na virgindade, derramou o seu sangue. Com este sangue por seu dote, tomou-me como sua esposa.
Os estigmas do meu esposo mantêm-se em chaga fresca e aberta, enquanto se abrirem as feridas dos pecados dos homens. Este facto de permanecerem abertas as feridas de Cristo é precisamente por culpa dos sacerdotes. Estes rasgam o meu vestido, porque são transgressores da Lei, do Evangelho e do seu dever sacerdotal. Tiram o esplendor ao meu manto, porque descuidam totalmente os preceitos que lhes são impostos. Sujam os meus sapatos, porque não caminham por estradas direitas, isto é, pelas estradas duras e severas da justiça, nem dão bom exemplo aos seus súbditos. Em alguns deles, porém, encontro o esplendor da verdade”.

E ouvi uma voz do céu que dizia: “Esta imagem representa a Igreja. Por isso, ó ser humano que vês tudo isto e ouves as palavras de lamentação, anuncia-o aos sacerdotes que estão destinados à guia e à instrução do povo de Deus, tendo-lhes sido dito, como aos apóstolos: ‘Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16, 15)”» (Carta a Werner von Kirchheim e à sua comunidade sacerdotal: PL 197, 269ss).

Na visão de Santa Hildegarda, o rosto da Igreja está coberto de pó, e foi assim que nós o vimos. O seu vestido está rasgado, por culpa dos sacerdotes. Como ela o viu e expressou, assim nós o vimos neste ano. Devemos acolher esta humilhação como uma exortação à verdade e um apelo à renovação. Só a verdade salva. Devemos interrogar-nos sobre o que podemos fazer para reparar o mais possível a injustiça sucedida. Devemos perguntar-nos o que estava errado no nosso anúncio, em todo o nosso modo de configurar o ser cristão, para que pudesse acontecer semelhante coisa. Devemos encontrar uma nova determinação na fé e no bem. Devemos ser capazes de penitência. Devemos esforçar-nos por tentar tudo o possível, na preparação para o sacerdócio, a fim de que uma tal coisa não possa voltar a acontecer. Este é também o lugar para agradecer de coração a todos quantos se empenham por ajudar as vítimas e suscitar neles de novo a confiança na Igreja, a capacidade de acreditar na sua mensagem. Nos meus encontros com as vítimas deste pecado, sempre encontrei também pessoas que, com grande dedicação, estão ao lado de quem sofre e foi lesado. Esta é a ocasião para agradecer também a tantos bons sacerdotes que transmitem, humilde e fielmente, a bondade do Senhor e, no meio das devastações, são testemunhas da beleza não perdida do sacerdócio.

Estamos cientes da particular gravidade deste pecado cometido por sacerdotes e da responsabilidade que nos cabe. Mas não podemos deixar de falar também sobre o contexto do nosso tempo que é testemunha destes acontecimentos. Existe um mercado da pornografia que envolve as crianças, e que de algum modo parece ser considerado cada vez mais pela sociedade como algo normal. A devastação psicológica de crianças, na qual pessoas humanas são reduzidas a um artigo de mercado, é um terrível sinal dos tempos. Continuo a ouvir, de Bispos de países do Terceiro Mundo, que o turismo sexual está a ameaçar toda uma geração e danificá-la na sua liberdade e na sua dignidade humana. O Apocalipse de São João menciona entre os grandes pecados de Babilónia – símbolo das grandes cidades irreligiosas do mundo – o facto de comercializar os corpos e as almas, fazendo deles uma mercadoria (cf. Ap 18, 13). Neste contexto, coloca-se também o problema da droga, que estende fortemente os seus tentáculos como um polvo por todo o globo terrestre – eloquente expressão da ditadura do dinheiro que perverte o homem. Todo o prazer se torna insuficiente e o excesso no engano da alucinação torna-se uma violência que dilacera regiões inteiras, e isto em nome de um equívoco fatal da liberdade, no qual a própria liberdade do homem acaba minada e por fim completamente anulada.

Para nos opormos a estas forças, devemos lançar um olhar sobre os seus alicerces ideológicos. Nos anos Setenta, teorizou-se sobre a pedofilia como sendo algo totalmente consentâneo ao homem e também à criança. Mas isto fazia parte duma perversão fundamental do conceito de vida moral. Defendia-se – mesmo no âmbito da teologia católica – que o mal em si e o bem em si não existiriam. Haveria apenas um «melhor que» e um «pior que». Nada seria em si mesmo bem ou mal; tudo dependeria das circunstâncias e do fim pretendido. Segundo os fins e as circunstâncias, tudo poderia ser bem ou então mal. A moral é substituída por um cálculo das consequências, e assim deixa de existir. Os efeitos de tais teorias são, hoje, evidentes. Contra elas, o Papa João Paulo II, na sua Encíclica Veritatis splendor de 1993, com vigor profético apontou na grande tradição racional da vida moral cristã as bases essenciais e permanentes do agir moral. Hoje, deve-se colocar de novo no centro este texto como caminho na formação da consciência. É nossa responsabilidade tornar de novo audíveis e compreensíveis entre os homens estes critérios como caminhos da verdadeira humanidade, no contexto de preocupação pelo homem em que estamos imersos.

Como segundo ponto, quero dizer uma palavra sobre o Sínodo das Igrejas do Médio Oriente. Teve início com a minha viagem a Chipre, onde pude entregar o Instrumentum laboris do Sínodo aos Bispos daqueles países lá reunidos. Inesquecível foi a hospitalidade da Igreja Ortodoxa, que pudemos experimentar imensamente agradecidos. Embora ainda não nos tenha sido concedida a plena comunhão, todavia constatámos com alegria que a forma basilar da Igreja antiga nos une profundamente uns aos outros: o ministério sacramental dos Bispos enquanto portador da tradição apostólica, a leitura da Escritura segundo a hermenêutica da Regula fidei, a compreensão da Escritura na unidade multiforme centrada em Cristo desenvolvida graças à inspiração de Deus e, por fim, a fé na centralidade da Eucaristia na vida da Igreja. Assim encontrámos ao vivo a riqueza dos ritos da Igreja antiga mesmo dentro da Igreja Católica. Tivemos liturgias com Maronitas e Melquitas, celebrámos em rito latino e tivemos momentos de oração ecuménica com os Ortodoxos e pudemos ver, em manifestações imponentes, a rica cultura cristã do Oriente cristão. Mas vimos também o problema do país dividido. Tornavam-se visíveis culpas do passado e feridas profundas, mas também o desejo de paz e de comunhão como existiram antes. Todos estamos cientes do facto de que a violência não traz qualquer progresso; de facto, foi ela que criou a situação actual. Só com o acordo e a compreensão mútua se pode restabelecer a unidade. Preparar a gente para esta atitude de paz é uma missão essencial da pastoral.

Depois, no Sínodo, o olhar alargou-se sobre todo o Médio Oriente, onde convivem fiéis pertencentes a religiões diversas e também a variadas tradições e diferentes ritos. No caso dos cristãos, há as Igrejas pré-calcedónias e as calcedónias; Igrejas em comunhão com Roma e outras que estão fora desta comunhão, e em ambas existem, um ao lado do outro, variados ritos. Nos tumultos dos últimos anos, foi abalada a história de partilha, as tensões e as divisões cresceram, de tal modo que somos testemunhas sempre de novo e com terror de actos de violência nos quais se deixou de respeitar aquilo que para o outro é sagrado, e, pior ainda, desmoronam-se as regras mais elementares da humanidade. Na situação actual, os cristãos são a minoria mais oprimida e atormentada. Durante séculos, viveram pacificamente juntos com os seus vizinhos judeus e muçulmanos. No Sínodo, ouvimos palavras sábias do Conselheiro do Mufti da República do Líbano contra os actos de violência aos cristãos. Ele dizia: com o ferimento dos cristãos, acabamos feridos nós próprios. Infelizmente, porém, esta e análogas vozes da razão, pelas quais nos sentimos profundamente agradecidos, são demasiado débeis. Também aqui o obstáculo é a ligação entre avidez de lucro e cegueira ideológica. Com base no espírito da fé e na sua razoabilidade, o Sínodo desenvolveu um grande conceito do diálogo, do perdão, do acolhimento recíproco; conceito esse, que agora queremos gritar ao mundo. O ser humano é um só e a humanidade é uma só. Aquilo que é feito em qualquer lugar contra o homem, no fim fere a todos.

Assim, as palavras e os pensamentos do Sínodo devem ser um forte brado, dirigido a todas as pessoas com responsabilidade política ou religiosa, para que detenham a cristianofobia; para que se levantem em defesa dos prófugos e dos atribulados e na revitalização do espírito da reconciliação. Em última análise, a regeneração só pode vir de uma fé profunda no amor reconciliador de Deus. Fortalecer esta fé, alimentá-la e fazê-la resplandecer é a missão principal da Igreja nesta hora.

Deter-me-ia de bom grado a falar detalhadamente da inesquecível viagem à Grã-Bretanha, mas quero limitar-me a dois pontos que estão relacionados com o tema da responsabilidade dos cristãos neste tempo e com a missão eclesial de anunciar o Evangelho. Recordo, antes de mais nada, o encontro com o mundo da cultura na Westminster Hall, um encontro onde a consciência da responsabilidade comum neste momento histórico suscitou grande atenção, que em última análise se concentrou na questão acerca da verdade e da própria fé. Que, neste debate, a Igreja deve prestar a própria contribuição, era evidente para todos. No seu tempo, Alexis de Tocqueville observara que, na América, a democracia se tornara possível e funcionara, porque existia um consenso moral de base que, ultrapassando as diversas denominações, a todos unia. Só se houver um tal consenso acerca do essencial é que podem funcionar as constituições e o direito. Este consenso de fundo proveniente do património cristão está em perigo sempre que no seu lugar, no lugar da razão moral, entra a mera racionalidade dos fins, de que há pouco falei. Combater contra esta cegueira da razão e manter-lhe a capacidade de ver o essencial, de ver Deus e o homem, aquilo que é bom e o que é verdadeiro, é o interesse comum que deve unir todos os homens de boa vontade. Está em jogo o futuro do mundo.

Por fim, queria ainda recordar a beatificação do Cardeal John Henry Newman. Por que motivo foi beatificado? Que tem ele a dizer-nos? A estas perguntas podem-se dar muitas respostas, que foram desenvolvidas no contexto da beatificação. Quero destacar apenas dois aspectos que estão interligados e, no fim de contas, exprimem a mesma coisa. O primeiro é que devemos aprender das três conversões de Newman, porque são passos de um caminho espiritual que nos interessa a todos. Aqui desejo pôr em evidência apenas a primeira: a conversão à fé no Deus vivo. Até àquele momento, Newman pensava como a média dos homens do seu tempo e como a média dos homens também de hoje, que não excluem pura e simplesmente a existência de Deus, mas consideram-na em todo o caso como algo incerto, que não tem qualquer função essencial na própria vida. Como verdadeiramente real apresentava-se-lhe, a ele como aos homens do seu e do nosso tempo, o empírico, aquilo que se pode materialmente agarrar. Esta é a «realidade» segundo a qual nos orientamos. O «real» é aquilo que se pode agarrar, são as coisas que se podem calcular e pegar na mão. Na sua conversão, Newman reconhece precisamente que as coisas estão ao contrário: Deus e a alma, o próprio ser do homem a nível espiritual constituem aquilo que é verdadeiramente real, aquilo que conta. São muito mais reais que os objectos palpáveis. Esta conversão significa uma viragem copernicana. Aquilo que até então lhe apareceu irreal e secundário, revela-se agora como a realidade verdadeiramente decisiva. Onde se dá uma tal conversão, não é simplesmente um teoria que é mudada; muda a forma fundamental da vida. De tal conversão todos nós temos incessante necessidade: então estaremos no recto caminho.

Em Newman, a forma motriz que impelia pelo caminho da conversão era a consciência. Com isto, porém, que se entende? No pensamento moderno, a palavra «consciência» significa que, em matéria de moral e de religião, a dimensão subjectiva, o indivíduo, constitui a última instância de decisão. O mundo é repartido pelos âmbitos do objectivo e do subjectivo. Ao objectivo pertencem as coisas que se podem calcular e verificar através da experiência. Uma vez que a religião e a moral se subtraem a estes métodos, são consideradas como âmbito do subjectivo. Aqui não haveria, em última análise, critérios objectivos. Por isso a última instância que aqui pode decidir seria apenas o sujeito; e é isto precisamente o que se exprime com a palavra «consciência»: neste âmbito, pode decidir apenas o indivíduo, o individuo com as suas intuições e experiências. A concepção que Newman tem da consciência é diametralmente oposta. Para ele, «consciência» significa a capacidade de verdade do homem: a capacidade de reconhecer, precisamente nos âmbitos decisivos da sua existência – religião e moral –, uma verdade, a verdade. E, com isto, a consciência, a capacidade do homem de reconhecer a verdade, impõe-lhe, ao mesmo tempo, o dever de se encaminhar para a verdade, procurá-la e submeter-se a ela onde quer que a encontre. Consciência é capacidade de verdade e obediência à verdade, que se mostra ao homem que procura de coração aberto. O caminho das conversões de Newman é um caminho da consciência: um caminho não da subjectividade que se afirma, mas, precisamente ao contrário, da obediência à verdade que pouco a pouco se abria para ele. A sua terceira conversão, a conversão ao Catolicismo, exigia-lhe o abandono de quase tudo o que lhe era caro e precioso: os seus haveres e a sua profissão, o seu grau académico, os laços familiares e muitos amigos. A renúncia que a obediência à verdade, a sua consciência, lhe pedia, ia mais além ainda. Newman sempre estivera consciente de ter uma missão para a Inglaterra. Mas, na teologia católica do seu tempo, dificilmente podia ser ouvida a sua voz. Era demasiado alheia à forma dominante do pensamento teológico e mesmo da devoção. Em Janeiro de 1863, escreveu no seu diário estas palavras impressionantes: «Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião». Não chegara ainda a hora da sua eficácia. Na humildade e na escuridão da obediência, ele teve de esperar até que a sua mensagem fosse utilizada e compreendida. Para poder afirmar a identidade entre o conceito que Newman tinha da consciência e a noção subjectiva moderna da consciência, comprazem-se em fazer referência à sua palavra, segundo a qual ele – no caso de ter de fazer um brinde – teria brindado primeiro à consciência e depois ao Papa. Mas, nesta afirmação, «consciência» não significa a obrigatoriedade última da intuição subjectiva; é a expressão da acessibilidade e da força vinculadora da verdade: nisto se funda o seu primado. Ao Papa pode ser dedicado o segundo brinde, porque a sua missão é exigir a obediência à verdade.

Tenho de renunciar a falar das viagens tão significativas a Malta, a Portugal e à Espanha. Nelas, de novo se tornou visível que a fé não é uma realidade do passado, mas um encontro com o Deus que vive e actua agora. Ele chama-nos em causa e opõe-se à nossa preguiça, mas é precisamente assim que nos abre a estrada para a verdadeira alegria.

«Excita, Domine, potentiam tuam et veni». Começámos pela invocação da presença da força de Deus no nosso tempo e pela experiência da sua aparente ausência. Se abrirmos os nossos olhos, precisamente com um olhar retrospectivo sobre o ano que caminha para o seu termo, é possível ver que a força e a bondade de Deus estão presentes de variadas maneiras também hoje. Assim todos nós temos motivos para Lhe dar graças. Com o agradecimento ao Senhor, renovo a minha gratidão a todos os colaboradores. Oxalá Deus nos dê a todos um Santo Natal e nos acompanhe com a sua bondade no próximo ano.

Confio estes votos à intercessão da Vigem Santa, Mãe do Redentor, e de coração concedo a todos vós e à grande família da Cúria Romana a Bênção Apostólica. Feliz Natal! »


Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine
Et homo factus est!

19.12.10

Antífonas do Ó: 19 de Dezembro: O Radix Iesse

19 de Dezembro: O Radix Iesse

(Edição de Steven van Roode1.)
O radix Jesse, qui stas in signum populorum, super quem continebunt reges os suum, quem gentes deprecabuntur : veni ad liberandum nos, jam noli tardare.
O rejeton de Jessé, qui êtes comme un étendard pour les peuples ; devant qui les rois se tiendront dans le silence ; à qui les nations offriront leurs prières : venez nous délivrer ; ne tardez plus.
Vous voici donc en marche, ô Fils de Jessé, vers la ville de vos aïeux. L'Arche du Seigneur s'est levée et s'avance, avec le Seigneur qui est en elle, vers le lieu de son repos. « Qu'ils sont beaux vos pas, ô Fille du Rot, dans l'éclat de votre chaussure » (Cant. VII, 1), lorsque vous venez apporter leur salut aux villes de Juda ! Les Anges vous escortent, votre fidèle Epoux vous environne de toute sa tendresse, le ciel se complaît en vous, et la terre tressaille sous l'heureux poids de son Créateur et de son auguste Reine. Avancez, ô Mère de Dieu et des hommes, Propitiatoire tout-puissant où est contenue la divine Manne qui garde l'homme de la mort ! Nos cœurs vous suivent, vous accompagnent, et, comme votre Royal ancêtre , nous jurons « de ne point entrer dans notre maison, de ne point monter sur notre couche, de ne point clore nos paupières, de ne point donner le repos à nos tempes, jusqu'à ce que nous ayons trouvé dans nos cœurs une demeure pour le Seigneur que vous portez, une tente pour le Dieu de Jacob. » Venez donc, ainsi voilé sous les flancs très purs de l'Arche sacrée, ô rejeton de Jessé, jusqu'à ce que vous en sortiez pour briller aux yeux des peuples, comme un étendard de victoire. Alors les rois vaincus se tairont devant vous, et les nations vous adresseront leurs vœux. Hâtez-vous, ô Messie ! venez vaincre tous nos ennemis, et délivrez-nous.
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18.12.10

Antífonas do Ó: 18 de Dezembro: O Adonai

18 de Dezembro: O Adonai


 
(Edição de Steven van Roode1.)

O Adonai, et dux domus Israël , qui Moysi in igne flammae rubi apparuisti, et ei in Sina legem dedisti : veni ad redimendum nos in brachio extento.
O Adonaï, Seigneur, chef de la maison d'Israël, qui avez apparu à Moïse, dans la flamme du buisson ardent, et lui avez donné la loi sur le Sinaï; venez nous racheter dans la force de votre bras.


O Seigneur suprême ! Adonaï ! venez nous racheter, non plus dans votre puissance, mais dans votre humilité. Autrefois vous vous manifestâtes à Moïse, votre serviteur, au milieu d'une flamme divine ; vous donnâtes la Loi à votre peuple du sein des foudres et des éclairs : maintenant il ne s'agit plus d'effrayer, mais de sauver. C'est pourquoi votre très pure Mère Marie ayant connu, ainsi que son époux Joseph, l'Edit de l'Empereur qui va les obliger d'entreprendre le voyage de Bethléhem, s'occupe des préparatifs de votre heureuse naissance. Elle apprête pour vous, divin Soleil, les humbles langes qui couvriront votre nudité, et vous garantiront de la froidure dans ce monde que vous avez fait, à l'heure où vous paraîtrez, au sein de la nuit et du silence. C'est ainsi que vous nous délivrerez de la servitude de notre orgueil, et que votre bras se fera sentir plus puissant, alors qu'il semblera plus faible et plus immobile aux yeux des hommes. Tout est prêt, ô Jésus ! vos langes vous attendent : partez donc bientôt et venez en Bethléhem, nous racheter des mains de notre ennemi.
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15.11.10

Peter Maxwell Davies e o pacifismo aliado da tirania

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Sir Peter Maxwell Davies (Photo: David Rose)
Sir Peter Maxwell Davies (Photo: David Rose)
Sir Peter Maxwell Davies has declared that he will no longer wear a poppy or attend Remembrance Day ceremonies honouring the wear dead because doing so would “legitimise” the conflicts in Iraq and Afghanistan. The Master of the Queen’s Music insists that he doesn’t intend any disrespect to our war dead. But his misrepresentation of our national commemoration does indeed insult the fallen – and it insults the Queen, too, who wore a poppy this morning as she laid a wreath at the Cenotaph. “Max” is entitled to hold any opinion he likes: thanks to those who gave their lives for freedom, no one will arrest him for his attempt to politicise Remembrance Sunday. But there’s a sharp dissonance between his attention-seeking remarks – which, whether he admits it or not, claim moral superiority over the Queen – and the Royal office he holds. So he should resign it.
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3.10.10

De arte Lusitana

Um dos "trunfos" da arte islâmica ― o arco em ferradura ― é muito anterior ao islão, conforme atestam os trabalhos iniciados em 1877 pelo introductor da archaiologia scientífica em Portugal, Estácio da Veiga, continuados por Leite de Vasconcelos e aprofundados cerca de cem anos depois do primeiro pela equipa de Cláudio Torres, que trouxeram ao público a memória da Basílica Paleocristã de Myrtilis (Mértola), construção composta por três naves e duas ábsides afrontadas, uma oriental e outra ocidental, em cuja fachada se teria aberto um pórtico, «provavelmente em duplo arco de ferradura ou arco ultrapassado, assente em colunas, de acordo com a sugestiva figuração de pórticos, esculpida em algumas lápides, e especialmente bem elaborada na do chantre Andreas, sendo assinalável o realismo algo naïf da arte deste período. (...)

Sem dúvida a função primacial [da vasta basílica myrtilense] foi a de lugar de doutrina e culto cristão, assistida por um corpo eclesial hierarquizado e bastante completo formado por presbíteros de que se conhecem os nomes de alguns; (Satírius, Romanus, Simplícius, Britto, Afranius), que presidiram à celebração de ofícios (a missa), administração dos sacramentos, formação dos catecúmenos etc, servida por uma pompa litúrgica especialmente rica no período visigótico. Queremos realçar aqui a função do canto que desempenhou um papel importante no convite à piedade e na criação de um clima emocional propício à exaltação do divino e ao fortalecimento da fé, nestas comunidades primitivas.

Sobre o exercício do canto na igreja myrtilense informa-nos o epitáfio (séc.VI) do já referido Andreas designado no texto "princeps cantorum", isto é o primeiro cantor [referência única em toda a península ibérica], e como era habitual deve ter presidido ao côro [local preferido para as inumações] e a uma "Schola" de cantores; e quem sabe se não exerceu a função de escola laica ministrando nesses tempos difíceis os rudimentos de leitura e escrita assumindo assim uma função social, como era habitual na alta Idade Média.

Além dos presbíteros e chantres, (cléricos de ordens maiores), a igreja de Myrtilis foi também servida pelos chamados menoristas. Entre estes conhecem-se o leitor Tyberius que faria a leitura das epístolas e um ostiário (porteiro) chamado Exupérius que teria por função a segurança e a limpeza da igreja.»

A Basílica funerária de Myrtilis extra-muros tem ainda a oferecer aos seus visitantes a mais antiga lápide de um judeu na península ibérica, com um candelabro (menorah), a exemplificar a componente judaica latinizada da sociedade myrtilense, próxima à cristã, bem como algumas epígrafes gregas, aparentemente de falantes com representação eclesiástica própria, referindo Êutiques, por coincidência ou não o nome do proponente do monofisismo. Esta heresia cristã de tipo unitariano, segundo Cláudio Torres, teria predisposto Mértola, tal como outras urbes mediterrânicas onde majoravam o arianismo e o monotelismo, à penetração do islão nos séculos VII e VIII.

«Antes da sacralização do local, ocorrida em meados do século V, essa zona foi ocupada por uma necrópole de incineração, que deu lugar a um cemitério de inumação a partir de finais do século I.» Quanto à tipologia da basílica e suas sepulturas (com tesselas), é de salientar a influência do norte de África, Proconsular, com o qual a cidade teria fortes ligações comerciais através do rio Guadiana. A orientação dos túmulos paleocristãos, com a cabeça a poente e o corpo deitado de costas de forma a que este possa olhar o Sol nascente no dia do Juízo Final, difere da dos islâmicos, com o lado direito virado a Meca.

«Embora seja identificável, do ponto de vista arqueológico, um estrato de destruição perfeitamente nítido (com abundantes vestígios do telhado [tégula e imbrices] sobre o pavimento) é possível que, logo no início do período islâmico, o local tenha servido como zona funerária. Algumas das sepulturas islâmicas (localizadas no mesmo nível arqueológico das paleocristãs) apresentam com estas fortes semelhanças do ponto de vista construtivo. Outras assentavam sobre o derruído telhado da basílica, edifício que teria entretanto sido abandonado», embora a zona seguisse sendo uma importante área mortuária. Há ainda elementos decorativos de origem oriental (aves do paraíso com cauda de pavão num campo de ramos de roseiras em botão) presentes nas lápides paleocristãs e mais tarde na cerâmica verde e manganês do Al-Andalus.

Mas característica da Lusitânia teria sido, entre outros pormenores epigráficos, a representação de arcos sobre colunas. Eis a transcrição do Epitáfio de Andreas:

«arco duplo (em ferradura) assente sobre duas colunas torsas com capitéis decorados [de tipo corintizante]
(dentro do arco)
alfa crismon ómega
ANDREAS FAMVLVS
DEI PRINCEPS CAN-
TORUM SACROSAN
CTE A[E]CLISIAE MER-
TILLIA[N]E VIXIT
ANNOS XXXVI
REQVIEVIT IN PA-
CE SUB D(IE) TERTEO
KAL(ENDAS) APRILES
AERA ∂LX TRI-
SIS
André, [familiar-]servidor
de Deus, primeiro [principal]
cantor da sacrossanta
Igreja
Mertiliana, viveu
36 anos,
descansou em
paz no terceiro dia
das calendas de Abril
da era de 560 e 3 [era de César] (o que corresponde no nosso calendário ao dia 30 de Março do ano de 525)
(alfa, cruz monogramática, ómega)
CH[...]

Chama-se a atenção para a expressão sacrossancta aeclisia mertilliana que refere o conjunto da comunidade cristã de Mértola, e para a decoração de arcos sobre capitéis decorados por três ordens de folhas de acanto, sustentadas por colunas torsas. As duas cruzes com alfa e ómega, a indicar que em Cristo está o princípio e o fim, iniciam e fecham o texto funerário: uma linha abaixo podem ver-se as letras CH[...], certamente início de uma frase de tipo propiciatório como por exemplo ― Cristo esteja contigo!.»

in Museu de Mértola - Basílica Paleocristã, coord. (catálogo e exposição) Cláudio Torres, ed. Campo Arqueológico de Mértola, 1993

20.9.10

Musica auribus nostris

O Luís já aqui divulgou a relação do Papa com a música, e as recentes declarações amigáveis por parte da Igreja Russa à Romana. Com efeito, a união cathólico-orthodoxa, nas pessoas dos senhores bispos de ambos os ritos, tem vindo a celebrar-se, não só no campo theológico-litúrgico, mas também no artístico, e atestando o facto estão as jornadas da cultura e da espiritualidade russas no Vaticano, em cujo magnífico concerto de música sacra no dia 20 de Maio último se interpretaram obras de Rachmaninov, Rimskij-Korsakov, Mussorgskij (quadros de uma exposição), Bortnjanskij, Chajkovskij, Vavilov, e ainda a symphonia "Cantares da Ascensão" do Metropolita Hilarion de Volololamsk, presidente do departamento das relações exteriores do Patriarcado de Moscovo. Ficai com a gravação integral do evento, que inclui as cordiais palavras do Patriarca Kirill na boca do Patriarca Hilarion, e as próprias deste, bem como o discurso final do Sancto Padre para lerdes, e com um ínfimo resumo em língua castelhana, italiana, inglesa, ou alemã, para os que menos tempo tiverdes:

15.9.10

Veni Carole gladiator amice et ede nobiscum!

Depois da fidedigna descripção que o Grande Luís fez do Carlos Magno, e da primeira vez que este último estocou aqui (com singular arte!) o seu Gládio nas hostes do Mau-é ― ou Má-fome, anthropónymo mais correcto ―, cabe-me a mim evocar a memória e invocar a intercessão do Feliz Joséph de Anchieta, figura tão querida ao continente natal do nosso novo colaborador.

José de Anchieta nasceu a 19 de Março de 1534, em São Cristóbal de La Laguna, na ilha do Tenerife, archipélago das Canárias. Descendia pelo lado do pai dos nobres bascos Antxeta, e pelo da mãe de judeus. Viveu com a sua família até aos 14 anos, até que veio para Portugal estudar (onde a Inquisição tolerava melhor a sua ascendência). Aos 17 anos fez diante da imagem de Sancta Maria da Cathedral de Coimbra os seus votos de virgindade perpétua e dedicação exclusiva ao serviço de Deus. Inspirado pelas cartas que Francisco Xavier enviava do Oriente, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus e em 1553 partiu para o Brasil, onde em 1554 participou na fundação da cidade de São Paulo, isto é, na primeira missa lá no planalto de Pitinaringa. Empreendeu longas viagens e perigosas, com motivos pastorais. Passou com os índios longo tempo e ganhou-lhes a intimidade, em respeito pela sua cultura local e tendo em vista a defesa desta, especialmente contra os abusos dos colonos. Aprendeu a língua tupi, e compôs a sua primeira grammática, que podeis ler. Tendo em conta a mentalidade das suas ovelhas, compõs-lhes um catecismo adaptado que grandemente contribuiu para a sua christianização. Enquanto esteve refém dos Tamoios, para conseguir a paz entre estes e os colonizadores portugueses, numa situação de angústia e temendo pela sua vida, prometeu à Virgem compôr-lhe uma monumental obra, que terminou por volta de 1563, de cerca de seis mil versos latinos, ao jeito clássico, intitulada De Beata Virgine Dei Matre Maria. Esta epopeia mariana, publicada muito depois da sua escritura, é de longe a mais importante obra escrita pelo "Canário de Coimbra", e pretende ser uma biografia completa da mãe de Christo, desde a concepção até à coroação celeste, uma exaltação profundamente piedosa da pessoa venerada, e também um conjunto de intervenções pessoais de sabor confessional. Anchieta colaborou com Mendes de Sá na expulsão dos franceses na baía de Guanabara. Sobresto escrepveu em latim a primeira epopeia das Américas, mais concretamente dos feitos portugueses nas Américas, a que chamou De gestis Mendi de Saa. Foi ordenado sacerdote aos 32 anos de idade. Opôs-se às heresias protestantes do seu tempo, mas nem por isso estrangulou um huguenote, como quis fazer crer mais tarde certa propaganda anti-jesuítica. Chegou a Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Morreu em Iriritiba, a 9 de Junho de 1597. O Papa João Paulo II declarou com solemnidade o "Apóstolo da Brasil" estar no Céu no dia 22 de Junho de 1980.

31.8.10

De cæteris et politica

Primeiro, avisar os nossos indulgentes lectores que criámos um índice para o blog com a lista alfabética de todas as setecentas e muitas mensagens aqui publicadas pelo Luís, já desde o tempo da vaidade e tudo. Também tendes à vossa disposição uma pequena aba traductora no canto superior direito do blog, que mostrará toda uma página na língua que preferirdes. Outra melhoria é a de poderdes imprimir os postais a partir do blog (função desactivada aquando da transição para o nada disto que é novo).

Arrumada a casa, passemos ao tema da política. O Apólogo de Jotão no Sagrado Livro dos Juízes ensina-nos que os melhores se acobardam de participar na liderança das nações, sendo esses lugares de destaque ocupados por quem menos merece. Não nos impressione portanto a escassez de governantes capazes, porque nada disto é exclusivo do nosso tempo:

Ierunt ligna,
ut ungerent super se regem,
dixeruntque olivæ:
“Impera nobis”.
Quæ respondit:
“Numquid possum deserere
pinguedinem meam,
qua et dii honorantur
et homines,
et venire, ut super ligna movear?”.

Dixeruntque ligna ad arborem ficum:
“Veni et super nos regnum accipe”.
Quæ respondit eis:
“Numquid possum deserere
dulcedinem meam
fructusque suavissimos et ire,
ut super cetera ligna movear?”.

Locuta quoque sunt ligna ad vitem:
“Veni et impera nobis”.
Quæ respondit:
“Numquid possum deserere
vinum meum,
quod lætificat deos et homines,
et super ligna cetera commoveri?”.

Dixeruntque omnia ligna
ad rhamnum:
“Veni et impera super nos”.
Quæ respondit eis:
“Si vere me regem vobis constituitis,
venite et sub mea umbra requiescite;
sin autem non vultis,
egrediatur ignis de rhamno
et devoret cedros Libani!”.
As árvores puseram-se a caminho
para ungirem um rei para si próprias.
Disseram, então, à oliveira:
"Reina sobre nós."
Disse-lhes a oliveira:
"Irei eu renunciar
ao meu óleo,
com que se honram os deuses
e os homens,
para me agitar por cima das árvores?"

As árvores disseram, depois, à figueira:
"Vem tu, então, reinar sobre nós."
Disse-lhes a figueira:
"Irei eu renunciar
à minha doçura
e aos meus bons frutos,
para me agitar sobre as árvores?"

Disseram, então, as árvores à videira:
"Vem tu reinar sobre nós."
Disse-lhes a videira:
"Irei eu renunciar
ao meu mosto,
que alegra os deuses e os homens,
para me agitar sobre as árvores?"

Então, todas as árvores disseram
ao espinheiro:
"Vem tu, reina tu sobre nós."
Disse o espinheiro às árvores:
"Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós,
vinde, abrigai-vos à minha sombra;
mas, se não é assim,
sairá do espinheiro um fogo
que há-de devorar os cedros do Líbano!"

24.8.10

CLXXXIII. Esta é dun miragre que mostrou Santa Maria en Faaron quand' era de mouros.



Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz
dela mal a ssa omagen, e caomia-llo assaz.

Desto direi un miragre que fezo en Faaron
a Virgen Santa Maria en tenpo d' Aben Mafon,
que o reino do Algarve ti' aquela sazon
a guisa d' om' esforçado, quer en guerra, quer en paz.

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...

En aquel castel' avia omagen, com' apres' ei
da Virgen mui groriosa, feita como vos direi
de pedra ben fegurada, e, com' eu de cert' achei,
na riba do mar estava escontra ele de faz.

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...

Ben do tempo dos crischãos a sabian y estar,
e porende os cativos a yan sempr' aorar,
e Santa Mari' a vila de Faaron nomar
por aquesta razon foron. Mas o poboo malvaz

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...


Dos mouros que y avia ouveron gran pesar en,
e eno mar a deitaron sannudos con gran desden;
mas gran miragre sobr' esto mostrou a Virgen que ten
o mund' en seu mandamento, a que soberva despraz.

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...

Ca fez que niun pescado nunca poderon prender
enquant' aquela omagen no mar leixaron jazer.
Os mouros, pois viron esto, fórona dali erger
e posérona no muro ontr' as amas en az.

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...

Des i tan muito pescado ouveron des enton y,
que nunca tant' y ouveran, per com' a mouros oý
dizer e aos crischãos que o contaron a mi;
poren loemos a Virgen en que tanto de ben jaz.

Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz...


Santa Maria de Ossónoba, rogai por nós.

13.5.10

Bispos escoceses encomendam música para o novo missal em língua inglesa

A Igreja que está na Escócia cuida da sua língua e da dignidade da música litúrgica que há-de oferecer ao Papa na sua visita ao Reino Unido agendada para Setembro. In New Liturgical Movement:

Music for the Pope's U.K. Visit

It is widely known that the new English translation of the Roman Missal has now received its recognitio, and it is hoped that music "worthy of the temple" will be composed for it. News has now gone public that the acclaimed Scottish composer, James Macmillan, who is a lay Dominican, has been commissioned by the bishops of Scotland, England and Wales to write music for the Pope's visit to the U.K. this September. He has been specifically asked to use the new translation, and so, it is believed that this will be the first musical setting of it to be written and sung. The Mass will be sung in Glasgow and Coventry and the papal Masses, and MacMillan will also be writing a motet for the beatification of Cardinal Newman in Coventry. Work on the Mass should be complete by the end of the month. There is more information on this at the Scottish Catholic Observer. James MacMillan's music is deeply religious, inspired by his Scottish musical heritage, and also rooted in Dominican chant. His recent 'St John Passion', which has been widely acclaimed, is a good example of this, and there is an audio clip from it online. There are many more samples of his music, including liturgical music, here. Above is a photo of JamesMacMillan receiving the first blessing of a Dominican priest and fellow composer.

Aprendamos com os bispos escoceses. Talvez para a próxima visita papal ― Deus queira que de Bento XVI ― a Igreja que está em Portugal possa fazer o mesmo a um dos muitos compositores em actividade entre nós ― por que não ao compositor distinguido com o privilégio de beijar a mão do Papa, dia 12 de Maio, no Centro Cultural, Eurico Carrapatoso, meu primeiro e muito querido mestre?

4.5.10

Livro de Ratzinger/Bento XVI sobre música

Será lançado em meados deste mês um livro que recolhe todos os textos e discursos do cardeal Ratzinger/Bento XVI sobre música. Dois excertos:
«Se la Chiesa deve trasformare, migliorare, “umanizzare” il mondo, come può far ciò e rinunciare nel contempo alla bellezza, che è tutt’uno con l’amore ed è con esso la vera consolazione, il massimo accostamento possibile al mondo della resurrezione? La Chiesa dev’essere ambiziosa; dev’essere una casa del bello, deve guidare la lotta per la “spiritualizzazione”, senza la quale il mondo diventa il “primo girone dell’inferno”. Si cerchi pure ciò che è adatto alla liturgia e alla partecipazione dei fedeli, ma si faccia di tutto perché ciò che è adatto sia anche bello e degno della più importante azione ecclesiale in cui viene usato.»
«Giustamente una Chiesa che faccia soltanto “musica d’uso” cade nell’inutile e diviene essa stessa inutile», afferma ancora il Papa. La Chiesa «dev’essere luogo della “gloria” e così anche luogo in cui i lamenti dell’umanità sono portati all’orecchio di Dio (…) deve destare la voce del cosmo glorificando il Creatore e rendere il cosmo stesso glorioso, e quindi bello, abitabile, amabile.»
Como comenta o autor da notícia, «quase um condensado da abordagem do Papa à música e à liturgia». In Rinascimento Sacro, via New Liturgical Movement.

17.4.10

«Ele considera a arte e a ciência como os dons mais preciosos de Deus ao Homem»

Compare-se a posição da Igreja perante a música com a ortodoxia islâmica, e a de Ratzinger com a do ayatolah Khomeni em relação ao divertimento(1). Via Pastoral da Cultura.
(1) - «Allah did not create man so that he could have fun. The aim of creation was for mankind to be put to the test through hardship and prayer. An Islamic regime must be serious in every field. There are no jokes in Islam. There is no humor in Islam. There is no fun in Islam. There can be no fun and joy in whatever is serious.»

3.4.10

Crux Fidelis/Pange Lingua

Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nulla silva talem profert, fronde, flore, germine. Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet. Pange lingua gloriosi lauream certaminis, et super crucis trophæo dic triumphum nobilem: qualiter Redemptor orbis immolatus vicerit. Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nulla silva talem profert, fronde, flore, germine. De parentis protoplasti Fraude Factor condolens, quando pomi noxialis in necem morsu ruit: Ipse lignum tune notavit, Damna lignus ut solveret. Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet. Hoc opus nostræ salutis Ordo depoposcerat: Multiformis proditoris Ars ut artem falleret: Et medilam ferret inde, Hostis unde læserat. Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nulla silva talem profert, fronde, flore, germine. Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre: Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores. Ó doce lenho, que os doces cravos e o doce peso sustentas. Canta, ó língua, o glorioso combate [de Cristo], e, diante do troféu da Cruz, proclama o nobre triunfo: a vitória conseguida pelo Redentor, vítima imolada para o mundo. Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre: Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores. (Eating of the tree forbidden, man had sunk in Satan's snare, when our pitying Creator did this second tree prepare; destined, many ages later, that first evil to repair.) Ó doce lenho, que os doces cravos e o doce peso sustentas. (Such the order God appointed when for sin He would atone; to the serpent thus opposing schemes yet deeper than his own; thence the remedy procuring, whence the fatal wound had come.) Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre: Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores.

Crux Fidelis

El-Rei Dom João IV
Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nulla silva talem profert, fronde, flore, germine. Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet. Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre: Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores. Ó doce lenho, que os doces cravos e o doce peso sustentas.

30.3.10

Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música - ilustração (2)

Mais uma ilustração da diabólica proibição islâmica da música, in Jihad Watch:
«In a tiny workshop on the roof of his home in a Baghdad slum, Farhan Hassan works in secret, lovingly curving wood and tightening strings to make his ouds -- a traditional Arabic instrument.

Only close family and friends know what he is doing, because the militiamen in his neighborhood frown on such frivolities.

(...) [N]owadays few in the country play or make the oud, a pear-shaped, deep-voiced cousin of the lute. Hundreds of artists fled Iraq during the violence in recent years -- and continued instability and the power of religious hard-liners give them little desire to return....

Now Hassan is also hoping to leave Iraq. Like many of the estimated 2.5 million Shiites who live in Sadr City, he has had to cope with some of the city's worst living conditions. Militiamen have closed music stores, prohibited the mixing of the sexes, banned wedding parties, imposed the Islamic hijab on women and murdered gay men -- all while making a living as hired guns....

"I could have gone out on the streets carrying an RPG or a machine-gun and people would either take no notice or commend me on my courage," he mused. "But I would have probably been killed if I had gone out with an oud in my hand," he said with a laugh tinged with bitterness.»
Recomenda-se uma leitura, mesmo que na diagonal, dos comentários à entrada da qual retirámos estes excertos de uma notícia da AP, com destaque para o de Hugh Fitzgerald:

«If one follows strictly, to the letter, Islam, then music is to be banned. And in some settings this is true. For example, think of the vast corpus of sacred music, church music, in Christianity as compared to the complete absence of any analogous music in the mosque. The Muslim apologist (...) points to some examples of popular music and claims that this rebuts those who say Islam bans or at least discourages music, is ignoring the fact that not everyone is necessarily strict in his observances, but that the rules as to What Is Commanded and What Is Prohibited are there, and at any time may, if Islam is taken more fully to heart (and when, or why, that happens to any individual Muslim is not predictable, least of all by non-Muslims) be enforced. See what the Taliban did to wedding-singers in Afghanistan. See what happens to some music and DVD stores in Hamastan, that is Gaza. See what happens to the RAI singers of Algeria, some of them actually murdered by those most fanatical in their faith.

Whatever musical tradition previously existed in lands then conquered by Islam were soon subject to constraints and the result was the musical impoverishment we see today.»

(Oud)
Ver Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música, Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música (addendum), Música e teologia: Pio X - Tra le sollecitudini, Música e teologia: Pio X - Tra le sollecitudini (2), Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música - ilustração, A aversão à música como característica do diabólico.

26.3.10

Gloria, laus, et honor tibi sit Rex Christe Redemptor cui puerile decus prompsit hossana pium. Ingrediente Domino in sanctam civitatem, hebræorum pueri resurrectionem vitæ pronuntiantes cum ramis palmarum 'Hossana ― clamabant ― in excelsis!'. A glória, o louvor e a honra, sejam para ti, Rei Cristo Redentor, ao qual o piedoso orgulho infantil cantou: 'Hossana!' Entrando o Senhor na cidade santa, as crianças dos hebreus anunciavam a Ressurreição e a Vida, e com ramos de palmeira, exclamavam: 'Hossana nas alturas!'
Stabat mater dolorosa juxta Crucem lacrimosa, dum pendebat Filius. Cuius animam gementem, contristatam et dolentem pertransivit gladius. O quam tristis et afflicta fuit illa benedicta mater Unigeniti! Quæ mærebat et dolebat, et tremebat, dum videbat nati pœnas inclyti. Quis est homo qui non fleret, Christi matrem si videret in tanto supplicio? Quis non posset contristari piam Matrem contemplari dolentem cum Filio? Pro peccatis suæ gentis vidit Iesum in tormentis, et flagellis subditum. Vidit suum dulcem Natum moriendo desolatum, dum emisit spiritum. Eia, Mater, fons amoris me sentire vim doloris fac, ut tecum lugeam. Fac, ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam. Sancta Mater, istud agas, crucifixi fige plagas cordi meo valide. Tui Nati vulnerati, tam dignati pro me pati, pœnas mecum divide. Fac me tecum pie flere, crucifixo condolere, donec ego vixero. Juxta Crucem tecum stare, et libenter sociare in planctu desidero. Virgo virginum præclara, mihi iam non sis amara, fac me tecum plangere. Fac, ut portem Christi mortem, passionis fac consortem, et plagas recolere. Fac me plagis vulnerari, Cruce hac inebriari, ob amorem Filii. Inflammatus et accensus, per te, Virgo, sim defensus in die iudicii. Fac me cruce custodiri, morte Christi præmuniri, confoveri gratia. Quando corpus morietur, fac, ut animæ donetur Paradisi gloria in sempiterna sæcula. Amen.Estava em pé a Mãe dorida, chorando junto à cruz, enquanto o Filho pendia. Cuja alma gemendo, entristecida e doendo, um gládio atravessou. Oh! Quão triste e afligida foi aquela bendita, a Mãe do Unigénito! A qual se enlutava e sofria, e tremia enquanto via as penas do Glorioso dela nascido. Qual é o homem que não choraria, se visse a mãe do Cristo em tamanho suplício? Quem não se entristeceria ao contemplar a piedosa mãe, sofrendo com o Filho? Pelos pecados da sua gente, ela viu Jesus em tormentos, do flagelo sendo súbdito. Viu o seu doce bebé morrendo desolado, e entregando o espírito. Ó Mãe, fonte do amor, faz-me sentir a força da dor, para contigo me enlutar. Faz que o meu coração arda de amor por Cristo Deus, para Lhe agradar. Santa Mãe, para que faças isso, fixa as chagas do Cruxifixo no meu coração, com força. Do teu Filho ferido, que por mim se dignou padecer, as penas divide, comigo. Faz-me chorar contigo, piedosamente, e condoer-me do Cruxifixo, enquanto eu fôr vivo. Desejo estar contigo, junto à Cruz, e com gosto me associo ao teu pranto. Ó Virgem das virgens, ilustríssima, agora não me sejas amarga, deixa-me chorar contigo. Faz que eu carregue a morte de Cristo, faz-me consorte da Paixão, e que eu de novo cultive as Chagas. Faz-me ferido de Chagas, que nesta Cruz eu me embriague com o amor do teu Filho. Abrasado e ardendo, por ti, Virgem, seja eu defendido no dia do Juízo. Faz-me ser guardado pela Cruz, pela morte de Cristo fortalecido, e pela graça confortado. Quando o corpo morrer, faz que à alma seja dada a glória do Paraíso para todo o sempre. Ámen
Verbe égal au Très-Haut, notre unique espérance, jour éternel de la terre et des cieux, de la paisible nuit nous rompons le silence: Divin sauveur, jette sur nous les yeux. Répands sur nous le feu de ta grâce puissante Que tout l'enfer fuie au son de ta voix Dissipe le sommeil d'une âme languissante Qui la conduit à l'oubli de tes lois! Ô Christ ! sois favorable à ce peuple fidèle, Pour te bénir maintenant assemblé ; Reçois les chants qu'il offre à ta gloire immortelle, Et de tes dons qu'il retourne comblé.Verbo igual ao Altíssimo, nossa única esperança, dia eterno da terra e dos céus, eis que rompemos o silêncio da noite quieta: Divino Salvador, dirige-nos o teu olhar! Espalha sobre nós o fogo da tua graça potente, que todo o inferno fuja ao som da tua voz. Dissipa o sonho duma alma lânguida, que a conduz ao esqueciemento das tuas leis! Ó Cristo, sê favorável a este povo fiel, Para te bendizer agora reunido. Recebe os cantos que ele oferece à tua glória imortal, e os teus dons, que ele devolve satisfeito.

21.3.10

A aversão à música como característica do diabólico

Uma intuição de um leitor do blogue Jihad Watch ― referida na entrada anterior, a propósito da proibição da música no islão ―, segundo a qual a aversão do islão à música denuncia que estamos perante um culto satânico, leva-nos a publicar uma observação feita por Jordi-Agustí Piqué i Collado, no seu livro Teologia i música: propostes per a un diàleg ― do qual existe uma versão em castelhano ―, a propósito da obra de Hildegard de Bingen, monja, teóloga, mística, poetisa e compositora do séc. XII. Diz o teólogo e músico catalão a páginas 98 e 99 do seu magnífico livro [tradução nossa do original catalão(1)]:
«Em Ordo [Virtutum], os diferentes personagens, patriarcas, virtudes, almas, vão cantando as suas contribuições para o drama, que tem pretensões de universalidade. Porém, um dos personagens não canta: este personagem é o diabo. Este personagem é caracterizado pelo não cantar, apenas pode declamar. Surge acompanhado pela indicação: Strepitus Diaboli ad animam illa [O Diabo estrepitoso dirige-se à alma]. A explicação de este recurso não pode dever-se a um mero recurso cenográfico. Na verdade, é revelador um episódio da vida de Hildegard, quando, já abadessa, permite que seja enterrado no cemitério do convento o corpo de um homem anteriormente excomungado. O clérigo de Magúncia, proibiu a comunidade de Hildegard de receber a comunhão eucarística e de cantar o ofício. Numa carta dirigida ao clérigo inquisidor, Hildegard elabora uma teologia particular do acto de cantar. Escreve Hildegard que Adão vem a perder o dom de cantar o louvor de Deus pelo pecado, perdendo a semelhança com as vozes angélicas. Os homens santos e os profetas hão-de descobrir na arte humana alguns géneros musicais que recordavam os modelos divinos. Porém, o diabo, ao ouvir cantar novamente o homem e ao perceber que este começava a recordar-se, por meio da música, das harmonias celestes, vai atemorizar o homem e tentar perturbar e destruir a beleza do louvor divino. Razão pela qual a abadessa diz ao clérigo que proibiu a música: "os prelados haviam de ser mais cuidadosos na hora de cerrar, com uma sentença, a boca de uma qualquer assembleia que canta a Deus [...], não se dê o caso de que esteja ajudando à obra de Satanás".»
Hildegard escrevendo sob inspiração divina (Codex de Rupertsberger do Liber Scivias)

(1) - «A l'Ordo els diferents personatges, patriarques, virtuts, ànimes, van cantant les seves aportacions al drama que té pretensions d'universalitat. Però un dels personatges no canta: aquest personatge és el diable. Aquest per­sonatge és caracteritzat pel no cantar, només pot declamar. Va acompanyat de la indicació: Strepitus Diaboli ad animam illa. L'explicació a aquest re­curs no pot deixar-se a un mer recurs escenogràfic. De fet és il.luminador un episodi de la vida d'Hildegarda, quan, ja abadessa, va deixar enterrar cementiri el cos d'un home en el passat excomunicat. El clergue de Magún­cia va prohibir a la comunitat d'Hildegarda sumir la comunió eucarística i cantar l'ofici. En una carta dirigida al clergue inquisidor desenvolupa una particular teologia de l'acte de cantar. Escriu Hildegarda que Adam va per­dre el do de cantar la lloança de Déu pel pecat, perdent la semblança amb les veus angèliques. Homes sants i profetes van trobar en l'art humà alguns gèneres musicals que recordaven els models divins. Però el diable, en sentir cantar de nou l'home i que aquest començava a recordar, per mitjà de la música, les harmonies celestes, es va espantar i va intentar torbar i destruir la bellesa de la lloança divina. Per la qual cosa, l'abadessa diu al clergue que prohibeix la música: "els prelats haurien de ser més curosos a l'hora de tancar amb una sentència la boca de qualsevol assemblea que canta a Déu [...], no sigui que estiguin ajudant l'obra de Satanàs".»

Para uma verdadeira compreensão do islão: a proibição da música - ilustração

Esta entrada serve de ilustração a estoutra, onde se trata a fundo da amplamente desconhecida proibição islâmica da música (salvo um par de excepções: a festa de Eid al-Adha e as cerimónias nupciais), a qual, mesmo não sendo habitualmente posta em prática, é absolutamente incontroversa e vinculativa, pelo que é realista esperar que qualquer regime islâmico mais rigorosamente observante das restrições impostas pelo Alcorão e pela Suná ― assim como pela jurisprudência que emana destas fontes ― a venha a aplicar. Recordo que, como visto na referida entrada, a prática da música é equiparada ao consumo de álcool e à fornicação, donde não ser despropositado temer que as práticas musicais venham a merecer das autoridades islâmicas mais zelosas uma efectiva proibição:
«A student has died after being beaten to death by pro-Taliban radicals at a Pakistani university.
The beating, which occurred earlier in the week, culminated in the death of Anan Khan, who attended the University of Engineering & Technology in Peshawar.
He was severely beaten with several other students at the university by members of a student wing of the hard-line Jamiat-e Islami party.
Witnesses have said the IJT attacked Adnan for playing music.
Members of the IJT have a record of breaking up music appreciation functions and dance parties on the campus.»
Via Jihad Watch, onde se pode ler uma entrada sobre a proibição da música no islão (mais curta e menos maçadora que a nossa), acompanhada de uma outra notícia que a ilustra. Finalizo com uma citação do ayatollah Khomeni e invocando o comentário de um leitor do Jihad Watch a uma notícia sobre esta matéria ― a proibição da música contida no Alcorão e na Suná do profeta do islão. Dizia o ayatollah Khomeni:
«Allah did not create man so that he could have fun. The aim of creation was for mankind to be put to the test through hardship and prayer. An Islamic regime must be serious in every field. There are no jokes in Islam. There is no humor in Islam. There is no fun in Islam. There can be no fun and joy in whatever is serious.»
Dizia o leitor (infelizmente não consigo encontrar a citação) que foi quando tomou conhecimento da proibição islâmica da música que se convenceu de que o islão é um culto satânico. Esta intuição do ignoto leitor do Jihad Watch leva-nos a escrever a próxima entrada.